Em “Tony”, a vida do primeiro chef superstar, Anthony Bourdain, vira filme estrelado por Antonio Banderas
Olhando para o rosto de Dominic Sessa, esta paisagem angular e insolente que prolonga a adolescência até ao amargo fim, perguntamo-nos o quanto as roupas, os caracóis e o mau humor de Bob Dylan lhe teriam adequado. Porém, naquela cinebiografia ideal, A Complete Unknown, outra pessoa acabou, Timothée Chalamet. Mas um rosto como o de Sessa não é algo que Hollywood perca a oportunidade de capitalizar, por isso aqui ele é o protagonista de outra obra biográfica sobre um astro do rock de um tipo diferente: “Tony”, nos cinemas a partir de 27 de agosto, a história de origem em ritmo boêmio do protótipo do chef famoso, Anthony Bourdain.
Um chef famoso antes que a fama dos chefs fosse matéria da cultura pop, ele se tornou famoso sobretudo graças a uma conhecida autobiografia lançada em 2000, Kitchen Confidential, na qual se inspira este filme dirigido por Matt Johnson. Entre os pioneiros a chegar aos programas de TV no início daquela onda que levaria os chefs a ser uma espécie de personagem e não apenas uma profissão, figuras tão mitificadas a ponto de exigirem até uma desconstrução psicológica ad hoc – e esse seria o aclamado O Urso.
Do que Tony está falando
Interessante que Tony chegue apenas agora, como que para fechar o círculo de uma era mediática que parece ter pelo menos parcialmente esvaziado (até O Urso terminou), para selar uma espécie de regresso ao ponto onde tudo começou. O roteiro do filme (Johnson com Matthew Miller, Todd Bartels, Lou Howe) ocupa a primeira parte de Kitchen Confidential, aquela que conta a história de um Bourdain de dezenove anos que já é fluente, mas que ainda esconde os olhos atrás de seus cachos indomáveis quando se retira.
Um garoto alto que o belo prólogo do filme mergulha na espiral de uma fuga da realidade – da família, das responsabilidades da vida adulta, do futuro rotulado em dogmas universitários. É 1975, ele conta aos pais que conseguiu uma bolsa para estudar literatura, mas em vez disso foge para Cape Cod no verão em busca de Nancy (Emilia Jones), uma garota que conheceu há algum tempo e que no final das contas é uma desculpa como qualquer outra para não levar as coisas a sério.
Enfim, um rude e imprudente, sem dinheiro e sem objetivos que funciona como uma espécie de evolução para a personagem que chutou Sessa, em sua estreia, em Hollywood, ou seja, a do excelente The Holdovers de 2023, mais uma adolescente com cara de tapa para ensinar a vida. Que aqui acaba sendo ensinado primeiro por Sal (Leo Woodall), um assistente de chef que pratica uma teoria do caos para aproveitar o fogo, o suor, o álcool e a foda; depois o sóbrio Chef (Antonio Banderas), dono do restaurante simples onde Sal trabalha e onde Tony também lava a louça, após recebê-lo na rede de sua casa.
Como nasce uma estrela da culinária
Para colocar em perspectiva, o filme de Johnson nada mais é do que uma maioridade (mesmo que o protagonista erroneamente o chame de “romance do edifício”, como numa divertida troca que distancia o seu ser e a sua pretensão de ser) ao som de piadas brilhantes, escrita ágil, uma playlist que é um mergulho na memória e no salgado.
Mas neste naufrágio de verão entre panelas e frigideiras, meninas para conquistar e tentar demônios, a certa altura nos perguntamos se Bourdain e sua história não desaparecem sob o pretexto da história de maioridade um pouco nostálgica e um pouco rebelde. Uma sensação que se fortalece ao deslizar para a segunda parte do filme, que se divide em duas seções claras (entre os dois mentores) e é necessariamente percebida como mais plana que a primeira, em última análise mais simples e finalmente mais reguladora do que a alma, portanto binária, em que Tony se baseia.
Ou seja, é como se em certo sentido esta história interessasse não tanto por ser biográfica, mas porque na biografia deste homem há um traço narrativo cinematográfico forte e representável. O que o filme persegue trabalhando com bastante fidelidade a paleta de personagens que o próprio Bourdain expôs nas primeiras páginas de Kitchen Confidential, porém suavizando e embotando o surgimento do fascínio venenoso pelo consumo de drogas e álcool, demônios que por muito tempo acompanharam o chef, que se suicidou em 2018. Funciona, sobretudo graças ao talento de Sessa, mas não pense nisso como uma cinebiografia de 360 graus.
Avaliação: 6,5
indefinido