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Novas tensões entre a UE e a Tunísia, Saied alerta: “O respeito pela soberania é uma linha vermelha”

“Um protesto severo deve ser expresso a quem não respeita o nosso país”

As relações entre a Tunísia e a União Europeia (UE) atravessam uma fase de nova tensão depois do Presidente da República, Kais Saied, instruiu o Ministro das Relações Exteriores, Mohamed Ali Naftipara transmitir um segundo protesto “firmemente formulado” ao embaixador do Reino dos Países Baixos, Josefina Frantzen, apenas dois dias depois de o embaixador da UE na Tunísia ter sido convocado ao Palácio de Cartago, Giuseppe Perrone. O chefe de Estado tunisino reiterou que o respeito pelos costumes diplomáticos e pela soberania nacional constituem uma “linha vermelha” intransponível. “Um protesto severo deve ser expresso a quem não respeita o nosso país, a soberania do nosso povo e as regras elementares das relações entre os Estados”, declarou o chefe de Estado, garantindo que a Tunísia “nunca aceitará” interferências externas nas suas decisões soberanas.

Na manhã de sexta-feira, o Ministro Nafti convocou o Embaixador Frantzen à sede do ministério. Segundo o que a diplomacia tunisina informou numa nota, Nafti convidou o diplomata europeu “a respeitar as normas e costumes diplomáticos e a abster-se de qualquer forma de interferência nos assuntos internos da Tunísia”. Por seu lado, o Presidente Saied criticou o que chama de “mentalidade antiga” de alguns parceiros europeus, que continuam a considerar a Tunísia “um país sujeito a instruções”. “Quem avalia ou aconselha – sublinhou Kais Saied – deve primeiro ter em conta a história do país e a vontade do povo tunisino”. O presidente acrescentou que a coincidência temporal escolhida por “alguns partidos estrangeiros” para intervir no debate nacional terá sido “premeditada”, enquanto a justiça tunisina “pronunciou a sua decisão no mesmo dia”, numa referência à libertação da comentadora Sonia Dahmani.

A advogada Dahmani – uma conhecida comentadora tunisina, condenada a oito meses de prisão num primeiro caso e a um ano e meio no segundo, num total de cinco processos contra ela, dos quais quatro com base no decreto 54 que na Tunísia regulamenta os crimes através dos meios de comunicação – deixou o instituto penitenciário feminino de Manouba nos últimos dias. Aqui a mulher passou mais de um ano e meio, ou seja, a pena prevista pelo primeiro tribunal e cerca de metade da segunda pena de prisão, de acordo com os requisitos da legislação tunisina para liberdade condicional, conforme explicou um dos seus advogados aos meios de comunicação nacionais.

O novo protesto de Saied surge na sequência da convocação, em 25 de novembro, do embaixador da UE na Tunísia, o italiano Perrone, a quem a presidência acusou o “incumprimento das regras do trabalho diplomático” e a utilização de alegados “procedimentos realizados fora dos canais oficiais estabelecidos pelos costumes diplomáticos”. Segundo a presidência tunisina, tais comportamentos não seriam compatíveis com o papel do embaixador, que representa a UE perante o Estado tunisino e as suas instituições. A convocação de Perrone ocorreu na sequência de algumas reuniões entre o diplomata italiano e representantes da sociedade civil, nomeadamente a com o secretário-geral da União Geral do Trabalho da Tunísia (UGTT), Noureddine Taboubi. Nas últimas semanas, o sindicato promoveu diversas manifestações e greves sectoriais ligadas, em particular, à crise ambiental em Gabes. A principal organização sindical da Tunísia, atormentada por problemas judiciais e divisões internas, chegou ao ponto de ruptura com a presidência em Agosto passado, após o ataque à sede da UGTT por um grupo de manifestantes pró-governo.

Do lado europeu, o Parlamento de Estrasburgo aprovou uma resolução que expressa “profunda preocupação” com a deterioração do Estado de direito e das liberdades fundamentais na Tunísia, citando em particular o caso Dahmani. Os eurodeputados denunciaram o que chamaram de detenção “arbitrária”, “assédio judicial” e “condições de confinamento”, apelando à “libertação imediata e incondicional” de Dahmani e de todos os detidos pelas mesmas acusações. A resolução – aprovada com 464 votos a favor, 58 contra e 75 abstenções – também insta Tunes a proteger a liberdade de expressão, de imprensa e de reunião; garantir a independência do poder judicial; revogar o decreto-lei 54, considerado um instrumento de limitação das liberdades fundamentais; respeitar os compromissos assumidos no âmbito do Acordo de Associação UE-Tunísia.

A Eurocâmara convida a Comissão a responder “à pressão económica exercida pelo governo tunisino sobre os defensores dos direitos humanos e a sociedade civil” e pede às instituições europeias que mantenham um diálogo diplomático coordenado para obter a libertação dos presos políticos. No entanto, a resolução chega no mesmo dia da libertação condicional de Sonia Dahmani, ocorrida na sequência da decisão favorável do Ministério da Justiça tunisino. A concomitância entre o reforço da posição presidencial sobre a soberania tunisina e as recentes posições assumidas pela UE sugere uma fase delicada nas relações bilaterais. Cartago insiste que as suas decisões judiciais e políticas são da competência exclusiva das instituições nacionais, enquanto o Parlamento Europeu mantém grande atenção à situação dos direitos e da liberdade de expressão no país.

Beatriz Marques
Beatriz Marques
Como redatora apaixonada na Rádio Miróbriga, me esforço todos os dias para contar histórias que ressoem com a nossa comunidade. Com mais de 10 anos de experiência no jornalismo, já cobri uma ampla gama de assuntos, desde questões locais até investigações aprofundadas. Meu compromisso é sempre buscar a verdade e apresentar relatos autênticos que inspirem e informem nossos ouvintes.