Olhando para a actual fase económica, o vice-presidente cessante do Banco Central Europeu afirmou que os riscos inflacionistas ligados ao conflito no Médio Oriente são inferiores aos de há quatro anos e apelou ao BCE para evitar reacções excessivas ao choque energético
A oposição do governo alemão à oferta do UniCredit ao Commerzbank vai contra o espírito do mercado único europeu e enfraquece a credibilidade da União de Poupança e Investimento. O vice-presidente cessante do Banco Central Europeu declarou isto ao jornal britânico “Financial Times”, Luís de Guindosnuma das suas últimas entrevistas antes do final do seu mandato no BCE no próximo mês. “É muito difícil para os governos afirmarem que são a favor da União de Poupança e Investimento se depois disserem: ‘Não, somos contra esta operação específica’”, disse de Guindos. O UniCredit detém uma participação de 35,5 por cento no Commerzbank, o segundo maior banco cotado da Alemanha, e no início deste mês lançou uma oferta para adquirir o resto do capital, avaliando o banco em mais de 35 mil milhões de euros. O chanceler alemão Friedrich Merz e a administração do Commerzbank opõem-se fortemente ao acordo: Merz acusou o banco italiano de tácticas “hostis” e “agressivas”, argumentando que a Alemanha precisa de bancos maiores, mas que “isto não significa que todo tipo de aquisição seja bem-vindo”.
De Guindos recusou-se a comentar os méritos específicos de uma possível fusão entre o UniCredit e o Commerzbank, mas sublinhou que o BCE é geralmente “a favor da consolidação transfronteiriça” entre os bancos europeus. De acordo com o vice-presidente cessante, as instituições maiores podem alcançar economias de escala, avaliações mais elevadas e financiamento mais barato: “Um banco europeu verdadeiramente grande poderia competir com os bancos dos EUA”, disse ele. De Guindos também observou que a intervenção governamental nas decisões empresariais não é exclusiva do caso alemão, mas representa uma tendência mais ampla na UE. “Está a acontecer em todo o lado”, disse ele, acrescentando que tais medidas vão contra o espírito do mercado único. O vice-presidente do BCE lembrou ainda a necessidade de modernizar o setor bancário alemão, definido como “muito fragmentado”, num momento em que a Alemanha enfrenta desafios económicos significativos. Na entrevista, de Guindos reconheceu também que o BCE interveio “ultimamente” contra o aumento da inflação em 2021 e 2022, explicando que o debate interno sobre as causas do aumento dos preços abrandou as decisões.
Olhando para a actual fase económica, afirmou que os riscos inflacionistas associados ao conflito no Médio Oriente são inferiores aos de há quatro anos e convidou o BCE a evitar reacções excessivas ao choque energético, cujos efeitos sobre o crescimento são até agora limitados. No entanto, alertou que os próximos dados de crescimento “não serão bons” e exigirão cautela. Por último, De Guindos sinalizou que o aumento da dívida pública na Zona Euro poderá criar mais dificuldades, com o risco de os mercados começarem a prestar mais atenção às finanças públicas e de o aperto das condições monetárias advir dos rendimentos e dos spreads, mesmo na ausência de novos aumentos de taxas por parte do BCE. O sucessor de De Guindos será governador do banco central croata, Boris Vujcicque tomará posse em junho.