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Veja por que em 15 anos ninguém mais terá um carro elétrico

Você acha que comprar um carro elétrico é garantia de liberdade, posse e direção rumo ao futuro? Prepare-se para uma desconexão: em 15 anos, talvez ninguém mais “tenha” um carro elétrico de verdade – e nem sentirá tanta falta assim.

Um tsunami de tecnologia: adeus ao carro como conhecíamos

  • Carros autônomos chegando com força
  • Apps para planejar rotas e achar pontos de recarga
  • Controle e monitoramento do carro à distância (da sua poltrona ou até da praia, por que não?)

Essas inovações estão mudando radicalmente nosso relacionamento com o automóvel. Mas o verdadeiro terremoto é menos comentado: aos poucos, deixamos de ser proprietários plenos dos veículos. É um processo, por vezes discreto, mas ganha força, tocando em tudo relacionado à posse de um carro.

O elo invisível: quem manda, afinal?

A tecnologia permitiu essa transformação (com pitadas de política, ecologia e até moral). Atualizar seu carro elétrico virou rotina, quase como passar receita nova no Thermomix. A Tesla inovou: empurra atualizações remotas, entrega funções inéditas, mais potência… Às vezes, até tira algo, num passe de mágica digital que só o dono descobre depois.

Outros fabricantes tentam seguir esse ritmo (nem sempre com o mesmo êxito), mas ninguém pretende olhar para trás. Porém, quando tudo depende de software, não há só a liberdade de adicionar – mas de retirar e degradar funções. Um exemplo? Tesla já reduziu a autonomia de certas Model S para aumentar a vida útil das baterias, sem avisar ninguém. Em 2021, desativaram radares de alguns modelos, tornando-os incompatíveis com o Autopilot, alegando que só as câmeras bastariam – depois, voltaram atrás. Há donos de carros fugindo de atualizações, temendo perder o que era garantido.

E a ideia de ativar funções depois da compra? Já existe. Alugue o ar-condicionado só nos meses mais quentes, por exemplo. No Porsche Taycan, pelo sistema Function on Demand, é possível, pagando de 10,72 a 19,50 euros mensais, liberar ferramentas como o Intelligent Range Manager ou o InnoDrive. Parou de pagar, perdeu – simples! Mas nem sempre o consumidor percebe que, nessas condições, ele não é dono integral do carro.

Personalização? Efeito bumerangue da tecnologia

Hoje, ofertar e retirar funcionalidades sob demanda ainda não é regra, mas está se expandindo. Logo, será possível “moldar” seu carro conforme humor, necessidade e, claro, bolso. Mas em compensação, a sensação de propriedade vívida vai pelo ralo. Quando seu carro depende de servidores e pagamentos, a relação se inverte: a marca manda mais que você.

E manutenção? Se você tiver um Tesla e bater, além da possível falta de peças e longos prazos, só poderá reparar em oficinas credenciadas e pagas à marca. Por quê? Porque só elas têm acesso aos sensores e sistemas para ativar ou desativar funções. Um simples conserto pode sair caro demais ou nem ser possível em oficinas “independentes”.

De dono a usuário: um novo paradigma sobre rodas

Os serviços de compartilhamento (ridesharing) prometem crescer, seja com carros autônomos ou não. Muitos consumidores nem fazem questão de comprar. Pegam um veículo alugado conforme a necessidade (como já acontece, por exemplo, no modelo Citiz). E o cenário dos autônomos? Elon Musk prometia, desde 2020, que os donos do Model 3 com Autopilot poderiam alugar seus carros para rodar sozinhos – mas, até agora, só quem confia em “Elon time” acredita.

E não para por aí. Algumas marcas, como a vietnamita VinFast, já vendem o carro mas alugam a bateria (entre 120 e 150 euros por mês), apresentada como garantia de tranquilidade e durabilidade. Sem bateria, sem carro – ou seja, não se é dono “de verdade” do veículo.

No lado financeiro, as montadoras agora escondem o preço de venda real atrás de ofertas de leasing de longo prazo (LLD), mais atrativas à primeira vista, pois tornam modelos caros aparentemente acessíveis. O truque só é limitado pela exigência do bônus ecológico: para saber se recebe o incentivo, é preciso divulgar o preço real. Mesmo assim, a LLD avança a passos largos, deixando claro que comprar um carro é, cada vez mais, ilusão – e quem paga só dirige, mas não manda.

Essa tendência não afeta só os carros, mas também diversos produtos digitais. Se você já “possui” um smartphone de uma famosa marca da maçã, sabe como é: as regras do que pode ou não ser feito não dependem só de limitações técnicas, mas do fabricante.

E se um governo decidir limitar a potência ou a velocidade de sua máquina favorita com uma simples atualização obrigatória – para “nosso bem”, claro? Isso é tecnicamente possível e, diante de crises energéticas ou pressões ambientais, não seria tão surreal assim. Já imaginou pegar a estrada e ser bloqueado por uma decisão política, temporária ou não?

No fim das contas, a ideia de ser proprietário de um automóvel – e especialmente de um elétrico – está mudando rápido, talvez mais do que gostaríamos de admitir. A pergunta não é mais quem dirige, mas quem realmente está no controle. Fique atento: em breve, ter um carro poderá ser apenas questão de pagar para usar – e aceitar as regras do jogo.

Beatriz Marques
Beatriz Marques
Como redatora apaixonada na Rádio Miróbriga, me esforço todos os dias para contar histórias que ressoem com a nossa comunidade. Com mais de 10 anos de experiência no jornalismo, já cobri uma ampla gama de assuntos, desde questões locais até investigações aprofundadas. Meu compromisso é sempre buscar a verdade e apresentar relatos autênticos que inspirem e informem nossos ouvintes.