O acordo também recebeu apoio de Washington
O acordo alcançado entre o governo sírio e as Forças Democráticas Sírias (Fds, coligação armada de maioria curda) marca um dos passos politicamente mais significativos dos últimos anos na Síria, abrindo caminho a um cessar-fogo estável no nordeste do país e a um processo de integração, tanto militar como administrativa, entre as estruturas curdas e o Estado central. O acordo, tornado público pelas próprias FDS e, posteriormente, pela agência de imprensa oficial síria “Sana”, prevê a retirada das forças armadas das linhas de contacto e o envio das forças de segurança do Ministério do Interior sírio para os centros urbanos de Hasakah e Qamishli, duas pedras angulares da Administração Autónoma Curda do Nordeste (Rojava).
O texto inclui ainda a criação de uma nova divisão do exército sírio composta por três brigadas compostas por combatentes das FDS nas províncias de Hasakah e Qamishli, bem como a criação de uma brigada curda em Kobane (Ain al Arab), que seria colocada numa divisão dependente da governadoria de Aleppo. Ao mesmo tempo, está prevista a absorção das instituições civis da Administração Autónoma do Nordeste da Síria pelo Estado, com a regularização e contratação estável de funcionários públicos, bem como garantias sobre os direitos civis e linguísticos dos curdos e o regresso das pessoas deslocadas.
A nível político, o acordo é apresentado como funcional para a “unificação do território sírio” e para a cooperação para a reconstrução, uma fórmula que reflecte a linha histórica de Damasco sobre a necessidade de devolver todas as áreas do país à autoridade central. Não é por acaso que poucas horas após o anúncio o governo nomeou o general Marwan al Ali comandante da Segurança Interna na província de Al Hasakah, um sinal concreto do início da transferência de responsabilidades das FDS para o Estado.
O acordo também recebeu apoio de Washington. O enviado dos EUA à Síria Tom Barrack classificou o acordo como um “marco histórico”, sublinhando que reflecte um compromisso partilhado com a “inclusão e dignidade de todas as comunidades sírias”. Uma apreciação que confirma como os Estados Unidos, ao mesmo tempo que reduzem a sua presença directa, continuam a apoiar uma estabilização negociada do Nordeste, onde as FDS têm sido o principal aliado de Washington contra o Estado Islâmico durante anos.
A questão mais delicada, contudo, continua a ser a da integração militar. Fontes do governo sírio deixaram claro que a absorção das forças curdas ocorrerá numa base individual e não colectiva. Em termos práticos, isto significa que os combatentes das FDS seriam incorporados como soldados ou oficiais individuais nas estruturas do exército e das forças de segurança do Estado, sem manter cadeias de comando autónomas ou uma identidade militar separada. Para Damasco, este é um ponto indispensável: não há forças armadas paralelas, não há autonomia militar regional. Para os Curdos, contudo, esta abordagem representa um risco estratégico significativo. Na verdade, a integração individual tende a dissolver a coesão das FDS como actor político-militar unitário, reduzindo a capacidade de negociação colectiva e o peso específico da liderança curda no longo prazo. Sem integração em “bloco” ou com fortes garantias institucionais, o receio é que, uma vez absorvidos os combatentes, o espaço político conquistado pela Administração Autónoma durante os anos de guerra seja também progressivamente esvaziado.
Neste sentido, o acordo parece histórico e frágil. Histórico porque estabelece, pela primeira vez, um quadro formal para o regresso do nordeste curdo à órbita do Estado sírio sem um confronto militar directo. Frágil porque muito dependerá da implementação concreta das cláusulas e da capacidade das partes para traduzir a integração num compromisso sustentável, e não numa simples normalização a partir de cima. Para os Curdos Sírios, o desafio será transformar a integração no Estado numa protecção duradoura dos seus direitos, evitando que o preço da paz seja a perda definitiva da sua influência política e militar.