Os confrontos estão concentrados nos distritos do norte de Sheikh Maqsoud, Ashrafieh e Bani Zeid, áreas densamente povoadas que durante anos foram predominantemente curdas.
Uma nova onda de violência está a atingir o norte da Síria, trazendo a cidade de Aleppo de volta ao centro de um confronto armado que parecia, pelo menos em parte, congelado. Desde terça-feira, foram retomados intensos combates entre as forças governamentais de Damasco e as milícias de maioria curda unidas nas Forças Democráticas Sírias (SDF), ativas sobretudo no nordeste do país. O balanço provisório fala de pelo menos cinco mortos e dezenas de feridos, incluindo civis, enquanto as Nações Unidas estimam que cerca de 30 mil pessoas já tenham abandonado a cidade na tentativa de chegar a um local seguro.
Os confrontos estão concentrados nos bairros do norte de Sheikh Maqsoud, Ashrafieh e Bani Zeid, áreas densamente povoadas que há anos são predominantemente curdas. Aqui foram abertos corredores humanitários para permitir a evacuação da população, enquanto se multiplicam os relatos de danos em habitações e infra-estruturas públicas. O sistema de saúde foi particularmente afetado: pelo menos três hospitais suspenderam as suas atividades e, a partir de terça-feira, também foram interrompidos os voos civis de e para o aeroporto internacional de Aleppo, agravando o isolamento da cidade.
As responsabilidades pela escalada estão no centro de uma dura troca de acusações. O Comando Geral das FDS afirmou que os bairros de Sheikh Maqsoud e Ashrafieh foram submetidos a um “cerco total” pelas forças governamentais durante mais de seis meses, apesar de – segundo a versão curda – não representarem qualquer ameaça militar. Numa nota, as FDS rejeitam as acusações de terem utilizado estes bairros como bases operacionais, definindo como “falsas e inventadas” as declarações vindas de círculos próximos de Damasco e acusando o exército sírio de usar tais pretextos para justificar bombardeamentos e ataques contra civis.
As FDS também afirmam que já não têm presença militar em Aleppo, afirmando que se retiraram publicamente ao abrigo de um acordo anterior e transferiram as responsabilidades de segurança para as Forças de Segurança Interna. O Comando Geral convidou os “estados de garantia” e as autoridades sírias a intervir para pôr fim imediato aos confrontos, alertando que a continuação da violência poderá trazer “toda a Síria de volta a uma zona de guerra aberta”, com graves consequências para a população civil. Por seu lado, Damasco anunciou hoje o lançamento de uma nova ofensiva contra “objetivos direcionados” das FDS, sinalizando a sua vontade de restabelecer o controlo sobre áreas consideradas sensíveis do ponto de vista da segurança. Os confrontos acontecem poucos dias depois de uma reunião realizada no dia 4 de janeiro na capital síria entre responsáveis do governo e o comandante das FDS Mazloum Abdi.
Segundo fontes citadas pela emissora estatal “Al Ikhbariya”, a reunião não produziu resultados concretos capazes de acelerar a implementação dos acordos no terreno. O diálogo insere-se no quadro do acordo assinado em 10 de março de 2025 entre Abdi e o presidente sírio Ahmed al Sharaa, que prevê a integração gradual das forças curdas nas Forças Armadas afiliadas ao governo de Damasco. A assessoria de imprensa das FDS reiterou que as consultas ainda estão em curso e que quaisquer resultados só serão anunciados oficialmente após a sua conclusão, sublinhando a necessidade de uma abordagem “profissional e responsável” para garantir a estabilidade e evitar uma nova escalada.