Cantora, escritora, viajante incansável: Silvana Di Liberto é uma daquelas artistas que transforma cada encontro e cada lugar em matéria viva para a sua criatividade. Ao longo da sua vida viajou por diversos cantos do mundo, entrando em contacto com culturas e tradições heterogéneas que enriqueceram o seu percurso humano e artístico.
Depois do sucesso do livro O Caminho de Santiago (do meu jeito) — também disponível em espanhol e francês — Silvana se prepara para uma nova peregrinação: a Via da Pratamais de 1.000 quilómetros de Sevilha a Santiago de Compostela, uma aventura que dedicará a um amigo especial.
Os anos no Algarve
Fechando os olhos, revivo aquelas tardes e noites de verão em que me sentia protagonista absoluto. Ainda sinto com carinho o cheiro salgado do oceano que se misturava ao meu repertório musical… Pediram-me músicas de suas terras distantes, de amores esquecidos, de bares onde haviam deixado uma parte de si – e eu tentei devolver, nota após nota, um fragmento desse sentimento. Cada vez que cruzava a fronteira para Espanha, o telefone mostrava uma hora a menos e os dias pareciam ficar mais longos, como se o próprio mundo se abrisse a novas possibilidades.»
O primeiro Caminho de Santiago
O que o levou a realizar o Caminho de Santiago e quais foram os momentos mais significativos?
«Na realidade, iniciar o Caminho não foi uma decisão minha. Foi uma proposta inesperada, recebida enquanto cantava num navio privado: um passageiro contou-me sobre a rota francesa e ofereceu-se para cobrir todas as despesas. Partimos juntos, guiados apenas por um mapa e setas amarelas.
Mantenho a simplicidade de algumas etapas que me levaram a abrandar, a ouvir-me e a concentrar-me na minha tenra idade. Durante a pandemia encontrei meu caderno antigo, cheio de anotações e lembranças daquela viagem: foi assim que nasceu meu livro O Caminho de Santiago (do meu jeito). É um ato de reflexão e um presente para quem, como eu na altura, por vezes se sente desorientado.»
Lembramos que Silvana di Liberto é autora de um livro que fala sobre o Caminho de Santiago. Qual é a principal mensagem que você deseja transmitir aos leitores do livro?
«Conto a minha história com ironia e espontaneidade, porque a vida, com todas as suas nuances, deve ser encarada de frente com dignidade… e talvez com um sorriso.»
A Via de la Plata: uma viagem a dois
Por que você escolheu a Via de la Plata como sua próxima aventura?
«A decisão nasceu de uma promessa feita a María, uma amiga espanhola, minha fã número um. Gostaríamos de fazer este itinerário juntos, mas a doença impediu-o. Então decidi fazer isso sozinho, por nós dois. É um caminho longo, menos percorrido, mais exigente… mas parece-me a forma mais honesta de honrar a nossa amizade.»
Como você está se preparando?
«Caminhar mais de 1.000 quilómetros não é brincadeira. Treino de forma consistente, aproveitando a zona montanhosa onde moro e carregando pesos para aumentar a respiração e a resistência. Na mochila, só o essencial: senão você volta para casa com os ombros em pedaços. Ao retornar, enviarei a você minha credencial: será nosso símbolo compartilhado. E talvez, para mim também, um capítulo totalmente novo.”
O valor espiritual e cultural da viagem
Qual o significado espiritual que Silvana Di Liberto atribui a essas experiências?
«Só colocando os pés no chão, este itinerário restaura a gratidão, a positividade, a purificação e o conhecimento. A espiritualidade, para mim, é um ato de libertação: do materialismo, do ruído, dos conceitos impostos. Evoluir é necessário. E a felicidade não está em outro lugar: está aqui, em estar lá.”
Como enriqueceram a sua vida pessoal e artística?
“O eu ando alimenta a minha criatividade: nas paisagens, na luz que persigo, nas palavras carinhosas trocadas, na forma como a minha voz se adapta ao canto. É uma arte em movimento, que só ganha cor se a desafiar.»
Como você compartilhará suas experiências ao longo da Via de la Plata?
«Vou documentar tudo com imagens, palavras e vídeos, contando o que permanece autêntico. As empresas que acreditaram no projeto estarão comigo, simbolicamente, representadas pelos seus logotipos: uma rede de apoio silenciosa mas fundamental.»