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Preços disparados: Portugal é o país da zona euro com maiores aumentos de preços

Algo a meio caminho entre um banho frio e um amargo retorno à realidade. Se há alguns meses muitos foram embalados na ilusão de uma estabilização económica definitiva, os números decidiram apresentar a conta. E que conta. Entre os países da zona euro, Portugal acaba de registar um salto na inflação com o aumento de preços mais acentuado numa base mensal. Não estamos a falar de variações marginais ou de estatísticas destinadas a ficar trancadas nas gavetas académicas, mas sim de uma taxa de 2,3 por cento registada entre Fevereiro e Março. Um valor que está bem acima dos tépidos 1,2 por cento que representa actualmente a média continental. Um registo que, para ser sincero, teríamos dispensado de bom grado, sobretudo tendo em conta o impacto direto no bolso dos cidadãos e da grande comunidade italiana que escolheu o território lusitano como sede.

O impacto da energia na inflação em Portugal

O verdadeiro culpado deste incêndio tem um nome preciso e evoca cenários que esperávamos que estivessem agora confinados aos livros de história económica recentes: o custo da energia. Só no mês de Março, os preços do sector energético em Portugal dispararam literalmente 7,5 por cento. Este é um nível recorde absoluto na série estatística do Eurostat, que começou há quase trinta anos. Este salto excede até mesmo os aumentos assustadores registados em 2022, quando a invasão russa da Ucrânia e a resultante reestruturação forçada dos mercados lançaram metade da Europa no caos, atingindo picos mensais de cerca de 6 por cento.

Perguntamo-nos se o sistema económico europeu, apesar da sua tão alardeada transição ecológica, ainda é tão estruturalmente frágil que é incapaz de amortecer as repercussões globais sem as transferir imediatamente para as facturas. Infelizmente, a resposta parece muito clara. O Índice Harmonizado de Preços no Consumidor, calculado precisamente para eliminar distorções internas e permitir comparações objetivas entre os vários estados membros da União Europeia, não deixa margem para dúvidas interpretativas: a economia portuguesa está a absorver este choque com maior velocidade e intensidade do que os seus vizinhos.

A crise geopolítica e os aumentos dos preços da energia na Zona Euro

A economia do país não vive sob uma cúpula de vidro e para compreendermos plenamente a dinâmica que hoje existe em Lisboa temos necessariamente de alargar o nosso olhar a todo o panorama internacional. As consequências do bloqueio do Estreito de Ormuz não são mera especulação sobre notícias estrangeiras. 38% do petróleo bruto e 29% do gás liquefeito de petróleo do mundo passam por esse centro crucial. Acrescente-se a isso o recente ataque a infra-estruturas vitais, como o complexo Ras Laffan, no Qatar. Estamos a falar da maior fábrica de gás natural liquefeito do mundo, que é também responsável por um quarto da produção mundial de hélio, um subproduto da refinação do gás absolutamente essencial para a produção de semicondutores.

Está assim servido o cocktail para uma tempestade perfeita. O presidente do BCE, Cristina Lagardenuma entrevista recente ao The Economist, definiu sem rodeios a atitude dos investidores que apostam numa rápida recuperação da crise como demasiado optimista. Ele alertou claramente que estamos diante de um verdadeiro choque cujas proporções ainda escapam à nossa plena compreensão. Perante esta enorme dinâmica global, pensar que Portugal poderá continuar a ser um oásis feliz e impermeável à turbulência internacional revela-se hoje uma perspectiva tristemente simplista.

Impacto no custo de vida e a ilusão de estabilidade

Mas o que tudo isto significa para a vida quotidiana e, sobretudo, para a gestão do orçamento familiar de quem vive e trabalha em Portugal? Os dados dizem-nos que a taxa de variação anual da inflação a nível local subiu para 2,7 por cento, crescendo 0,6 pontos percentuais em relação a Fevereiro. Um número que marca a décima segunda taxa mais elevada entre os vinte e um países da zona euro e que, acima de tudo, ultrapassa o objectivo ideal de 2 por cento estabelecido em Frankfurt para garantir a estabilidade dos preços.

Alguém poderia objetar legitimamente, perguntando-se se esse aumento se traduzirá automaticamente em um ticket mais alto no supermercado a partir de amanhã de manhã. Aqui entra em jogo um indicador fundamental que requer atenção máxima: o núcleo da inflação. Ajustado da elevada volatilidade dos preços dos produtos energéticos e alimentares, este parâmetro reflete a persistência da inflação no tecido económico no médio prazo. Em março, a inflação em Portugal fixou-se em 2,2 por cento, perdendo ainda um ponto percentual face ao mês anterior. Traduzido em termos práticos: a hemorragia dos custos energéticos ainda não foi completamente repassada ao resto da cesta de bens e serviços. No entanto, fingir que o problema não existe seria irresponsável. O aumento dos custos logísticos e de produção, mais cedo ou mais tarde, terá os seus efeitos e os aumentos serão inevitavelmente sentidos em todos os sectores.

Um novo aumento da taxa do BCE no horizonte

Neste cenário sombrio, a reacção das instituições financeiras europeias parece quase óbvia. Os analistas reconhecem abertamente que o Banco Central Europeu, já na delicada reunião de política monetária marcada para 30 de Abril, poderá ser forçado a rever as percentagens de referência. No entanto, reagir mais rapidamente do que o que foi feito em 2022 para cortar pela raiz o aumento da inflação significa um arrefecimento acentuado da economia, não só em Portugal, mas em toda a Zona Euro.

Um possível ajustamento ascendente resultará em hipotecas e empréstimos ainda mais caros para as famílias e empresas que operam na área. O eterno dilema de uma política forçada a escolher sistematicamente o mal menor surge novamente. Portugal vê-se obrigado a navegar em águas perturbadas por correntes profundas e distantes. Abordar esta situação complexa exigirá uma dose enorme de realismo saudável: a capacidade de enfrentar a realidade económica sem ceder ao derrotismo, mas ao mesmo tempo abandonar a frágil ilusão de que a dinâmica global pode ser ignorada impunemente.

Beatriz Marques
Beatriz Marques
Como redatora apaixonada na Rádio Miróbriga, me esforço todos os dias para contar histórias que ressoem com a nossa comunidade. Com mais de 10 anos de experiência no jornalismo, já cobri uma ampla gama de assuntos, desde questões locais até investigações aprofundadas. Meu compromisso é sempre buscar a verdade e apresentar relatos autênticos que inspirem e informem nossos ouvintes.