A ilusão de estar num oásis periférico tranquilo à beira de grandes tensões continentais corre o risco de colidir com uma realidade muito mais complexa e articulada. Portugal, há muito celebrado pela sua segurança e qualidade de vida invejável, encontra-se agora num centro crucial para grandes redes criminosas globais. Os cartéis internacionais dedicados ao tráfico de droga estabeleceram-se há muito em Portugal. Para nós, comunidade italiana residente, tomar conhecimento desta metamorfose é o primeiro passo para compreender a real dinâmica do território em que escolhemos viver.
A Polícia Judiciária portuguesa está em alerta máximo, consciente de que o país se transformou num pólo estratégico onde convergem os interesses de diversas organizações criminosas. Um fenómeno que não pode ser classificado como um simples problema de ordem pública, mas que afecta plenamente a dinâmica económica e política de uma nação que funciona como primeira porta de entrada para a Europa no Oceano Atlântico.
Existem rotas de tráfico de droga em Portugal?
Todos os principais intervenientes no mercado ilícito global operam atualmente em solo português. Não estamos a falar apenas dos grupos sul-americanos bem conhecidos, como o cartel de Sinaloa ou do Golfo, mas de uma presença generalizada que inclui o cartel dos Balcãs, os clãs albaneses e até grupos do norte da Europa, como o cartel dinamarquês NNV. Num contexto em que o mundo está cada vez mais interligado, o efeito borboleta é evidente: decisões tomadas por líderes criminosos a milhares de quilómetros de distância têm repercussões diretas no tecido local. Estas organizações celebram acordos comerciais mas, inevitavelmente, também entram em conflito.
Os recursos logísticos disponíveis são limitados e o território nacional é geograficamente limitado, elementos que tornam quase inevitáveis os confrontos pelo domínio. O influxo de enormes quantidades de cocaína garante lucros incalculáveis. Trazendo consigo o espectro da lavagem de dinheiro e da corrupção, capazes de poluir rapidamente a economia legal. Os números confirmam esta tendência: só no primeiro semestre deste ano as autoridades interceptaram dez toneladas de droga, às quais se somam outras sete recentemente recuperadas de dois barcos de pesca em alto mar.
Cartéis brasileiros operando em Portugal
A proximidade cultural e linguística desempenhou um papel decisivo na atração de facções criminosas específicas. Estamos falando em particular daqueles que chegam do Brasil. As pressões institucionais exercidas pelas autoridades sul-americanas levaram muitos expoentes importantes do Primeiro Comando da Capital e do Comando Vermelho a procurar refúgio no exterior. Isto ocorre tanto por razões de reorganização estratégica como para escapar à captura. Como acontece frequentemente em sistemas complexos, um controlo repressivo massivo de um lado provoca uma fuga fisiológica do outro. Os dirigentes da Polícia Judiciária portuguesa não escondem que as organizações transnacionais presentes representam um risco estrutural ao mais alto nível. Dados do Ministério Público de São Paulo no Brasil confirmam essa leitura. Aqui os juízes sul-americanos certificam que Portugal é a nação europeia com maior presença de afiliados do Primeiro Comando da Capital.

Com a identificação de oitenta e sete membros pertencentes a vários cartéis de tráfico de droga, Portugal classifica-se globalmente apenas atrás de nações como Paraguai, Venezuela, Bolívia e Uruguai. Um dado ainda mais alarmante diz respeito à penetração silenciosa no sistema penitenciário, onde se concentra um terço desses indivíduos. As prisões transformam-se assim no local de eleição para o proselitismo e o recrutamento de novos trabalhadores. A diplomacia tem dificuldade em acompanhar o ritmo: as autoridades brasileiras enfrentam dificuldades burocráticas objectivas em comunicar prontamente as transferências de fugitivos para Lisboa, criando perigosas zonas cinzentas.
Violência e cartéis de droga em território português
Quando os delicados equilíbrios criminais são perturbados, a violência emerge claramente, atingindo rivais e ameaçando abertamente as instituições. Os sinais desta crescente tensão no campo são agora inegáveis. Nos últimos meses, o noticiário judicial tem registado pesadas condenações por homicídio contra membros de um bando de motociclistas escandinavos, que chegaram concretamente à província de Lisboa, a Odivelas, e à província de Setúbal para acertar antigas contas económicas ligadas ao tráfico de droga.
Ainda mais dramática, pelo seu valor simbólico, é a homenagem prestada pela polícia. No sul de Portugal, umnavio da Guarda Nacional Republicana foi deliberadamente abalroado por uma poderosa lancha traficante de droga no rio Guadiana. O impacto custou a vida de um soldado, enquanto os agressores, quase um mês depois, ainda estão foragidos. Este não é um acidente trivial, mas sim o sintoma de uma escalada de arrogância por parte daqueles que sabem que podem contar com meios desproporcionais aos actualmente disponíveis ao aparelho de Estado.
Conflitos urbanos e tráfico de droga em Lisboa
A fragmentação do poder criminoso produz efeitos devastadores mesmo no coração dos grandes centros urbanos, alterando a percepção de segurança dos residentes. A emboscada ocorreu no final de fevereiro Rua do Benformosoem Lisboa, é a demonstração prática disso. O que aparentemente parecia um tiroteio isolado na verdade torna-se parte de uma disputa implacável pela hegemonia do bairro. A dinâmica que surgiu indica que uma das vítimas, gravemente ferida, está organicamente ligada à rede de Samir, um conhecido traficante de droga recentemente condenado a dezanove anos de prisão.
Até recentemente, o seu grupo detinha o monopólio do mercado de crack ao longo do eixo Mouraria-Chelas. A sua saída forçada de cena desencadeou um vazio de poder que grupos igualmente implacáveis estão a tentar preencher com o uso de armas. Os autores do tiroteio, que entraram em ação a partir de um carro em movimento em plena luz do dia, ainda são procurados, embora os investigadores já tenham identificado pelo menos um dos autores.
Combater as redes criminosas através da monitorização dos fluxos financeiros

Perante um quadro em tão rápida evolução, parece pouco provável que continuar a confiar em soluções temporárias ou numa lógica puramente de emergência seja o responsável. As forças policiais fazem enormes esforços todos os dias, mas o desafio exige um salto de qualidade. Precisamos de uma visão capaz de ir além de simples operações de controlo, integrando uma monitorização financeira séria e uma profunda repensação da dinâmica prisional. Pensar em resolver um problema global utilizando ferramentas e burocracias ultrapassadas é simplesmente ilusório. O tecido social e económico do país tem certamente os anticorpos para reagir, mas nunca antes foi necessária uma dose maciça de realismo. Saber encarar a realidade de frente, longe do derrotismo independente e do fácil triunfalismo superficial, continua a ser a única abordagem para tentar governar o fenómeno.