A memória colectiva só pode remontar ao terrível Verão de 2017 e à tragédia de Pedrógão Grandeonde um único incêndio apocalíptico custou a vida a mais de 60 pessoas, deixando uma cicatriz indelével no coração de Portugal. Esse acontecimento foi um brutal alerta, mas, anos depois, a questão permanece a mesma: porque é que Portugal continua a arder?
A resposta não é simples nem atribuível a um único fator, como muitas vezes sugere a caça ao “incendiário”. Pelo contrário, é uma rede complexa de causas estruturais, ambientais, sociais e económicas. Vamos analisar juntos os pontos cruciais e as prováveis causas que alimentam este drama anual de incêndios em Portugal.
1. Um território frágil e abandonado
2. Gestão do patrimônio florestal: um quebra-cabeça inacabado
O governo promoveu um registo predial rural, um passo importante para saber “quem é dono do quê”. Mas a realidade é que a maioria destas pequenas explorações florestais não tem valor de mercado. As terras estão abandonadas, sem manejo e quando queimam, a indiferença reina suprema. A floresta portuguesa é um mosaico complexo: por um lado as grandes monoculturas de eucalipto para a indústria do papel e da cortiça (montado); de outro, uma imensa área, outrora dominada por pinheiros, hoje fragmentada em micropropriedades abandonadas. Para complicar a imagem, haveria eu baldiosterras comunitárias muitas vezes mal geridas e no centro de interesses opacos, nos quais ninguém parece querer intervir.
3. Uma economia florestal fraca e os pecados da política
Fala-se muito sobre economia florestal, mas a verdade é que grande parte da queima de terras é simples matagal mediterrânico (amigo), sem qualquer valor económico direto. Para a madeira que tem mercado, como o eucalipto ou o pinus, o preço é ditado por uma um punhado de grandes empresasque devemos perguntar-nos o que fazem para incentivar os pequenos proprietários a investir na limpeza e na gestão.
Esta catástrofe é acompanhada por uma flagrante desinteresse institucional e social. O Ministério da Agricultura é perpetuamente relegado para o fundo das hierarquias governamentais, como se a alimentação não fosse uma prioridade. Portugal tem uma organização pública arcaica, incapaz de comunicar com o território, e leis florestais que, apesar de terem gasto milhares de milhões de euros de fundos europeus, não tiveram efeitos duradouros. É emblemático que os parques naturais, áreas protegidas e sujeitas a mil condicionantes “paisagísticas”, ardam com a mesma regularidade que outras áreas.
4. Superando o mito do incendiário e recomeçando a partir dos municípios
É conveniente e eficaz para a mídia culpar o incendiário. Mas os dados oficiais da GNR falam claro: a grande maioria dos incêndios começa negligênciapráticas agrícolas obsoletas e descuido. Claro, um louco pode iniciar um incêndio, mas um “grande incêndio” só ocorre se houver combustível para queimar. E Portugal, hoje, é um imenso barril de pólvora.
Finalmente, a tendência recente para reduzir o papel e as responsabilidades dos municípios na gestão das zonas rurais é um erro fatal. Nenhum plano nacional de defesa florestal será alguma vez bem sucedido se os autarcas e as comunidades locais não forem colocados em posição, com recursos e competências, para voltarem a ser os principais guardiães do seu território.
O combate aos incêndios em Portugal não pode ser ganho apenas com mais canadianos e bombeiros, mas contando os factos, analisando as causas e estudando uma estratégia de longo prazo que combata o despovoamento, valorize a terra, reforme a administração e devolva o poder e a responsabilidade a quem vive naquele território todos os dias.