Por que milhões de chineses estão sendo instruídos a armazenar comida agora? Mistério, precaução ou pura paranoia coletiva? Uma coisa é certa: quando o governo mais populoso do mundo diz para guardar uns pacotes de arroz a mais no armário, é melhor dar ouvidos. A seguir, desvendamos os motivos dessa orientação – ou ao menos tentamos, já que as autoridades chinesas continuam mantendo um ar de suspense digno de novela.
O comunicado oficial: de olho na prateleira e no improviso
No início de novembro, um aviso postado no site do Ministério do Comércio da China orientou a população a constituir reservas domésticas de alimentos. O texto solicita que os lares mantenham uma quantidade adequada de produtos essenciais para atender às necessidades diárias e eventuais emergências. Contudo, a razão oficial para tal pedido foi ocultada atrás das cortinas vermelhas: não se explica na nota se o país enfrenta risco concreto de falta de comida ou se há uma outra motivação urgente.
O ministério, sem perder tempo, também requisitou que as autoridades locais facilitassem a produção agrícola, melhorassem o fluxo de suprimentos, monitorassem os estoques de carne e vegetais e zelassem pela estabilidade dos preços. Afinal, ninguém quer revival do começo de 2020, quando a pandemia de Covid-19 pegou as cadeias de abastecimento de calças curtas com quarentenas em massa e bloqueios de estradas.
Covid, confinamentos e as cicatrizes da cadeia de suprimentos
Com os Jogos Olímpicos de Inverno se aproximando em Pequim e focos esporádicos de Covid-19 surgindo no norte do país, a preocupação em manter tudo sob controle aumentou. Mais de 6 milhões de chineses foram postos em confinamento, incluindo habitantes da grande Lanzhou, a 1.700 km da capital. Mesmo com os números de infecção ficando bem abaixo das médias globais – apenas 71 novos casos em 24 horas na última contagem apresentada –, a vigilância permanece intensa.
A memória do pico pandêmico ainda é fresca: na fase mais crítica, as cadeias de abastecimento cederam sob o peso das restrições, revelando fragilidades regionais e nacionais, e deixando o governo determinado a não ser pego de surpresa novamente.
Riscos climáticos, dependência externa e a conta no mercado
Se houvesse um bingo da crise alimentar, a China já teria marcado vários quadrados:
- Inundações, que perturbaram a produção agrícola no verão e empurraram os preços para cima;
- Primeiro lugar no ranking de importadores mundiais de alimentos, o que mantém o país vulnerável aos altos e baixos de relações diplomáticas com fornecedores grandes, como EUA, Canadá e Austrália;
- Tensão global nos preços de cereais (trigo, arroz, milho… você escolhe o grão), alimentando temores de estoques apertados.
Não bastasse, o clima colaborou pouco, com desastres naturais mais frequentes e as consequências do aquecimento global pairando como fantasma. No mês passado, os preços de 28 alimentos básicos dispararam 16% em relação ao mês anterior, segundo a imprensa chinesa baseada em dados oficiais. E um ano antes, o próprio presidente Xi Jinping já havia pedido à população para economizar comida e evitar desperdícios, lembrando tragédias históricas como as fomes das décadas de 1950 e 1960, que ceifaram dezenas de milhões de vidas durante a coletivização forçada das terras.
Precaução, política e o fantasma das grandes crises do passado
A China não é autossuficiente em agricultura, e, como sabemos, ser o maior importador global de produtos agrícolas oferece vantagens… mas também fragilidades. Em tempos de incerteza, seja pela instabilidade internacional ou por políticas agrícolas ecológicas que acabam reduzindo produtividade e estoques mundiais, Pequim não quer correr riscos desnecessários.
Para completar o quadro, as relações com tradicionais fornecedores, como EUA, Austrália e parte da Europa, se deterioraram por motivos ideológicos. Assim, ao invés de esperar para ver – e correr o risco de filas quilométricas no mercado –, o governo prefere jogar seguro e incentivar o abastecimento preventivo.
- As autoridades enfatizam que, ainda que existam estresses no sistema, não há motivos para pânico;
- Até mesmo tensões militares hipotéticas, como a questão de Taiwan, são consideradas exageros da imaginação e da imprensa estrangeira.
Conclusão: Quando o mundo parece desabar, o melhor é prevenir
A orientação para estocar alimentos na China revela uma lição valiosa: viver em tempos incertos requer, acima de tudo, preparação. E não custa lembrar: encher a despensa não é só coisa de gente paranoica, mas de quem já viu suficientes reviravoltas na história. Se o arroz sobrar no final, sempre dá para fazer um yakisoba caprichado ou convidar os vizinhos para jantar!