Se você acha que o segredo do bem-estar mental é só relaxar na rede com um bom livro, prepare-se para se surpreender: os verdadeiros pilares do bem-estar mental podem dar nó até em especialista que só acredita no óbvio!
Descobrindo as engrenagens do bem-estar: paixão, autonomia (e até tarefas domésticas!)
O conceito de felicidade pode soar simples – um sentimento de gratidão, satisfação, aquela sensação gostosa de bem-estar emocional. Mas assim como na ficção científica, a ciência mostra que os caminhos da mente podem ser surpreendentemente complexos.
Pesquisadores canadenses decidiram explorar as minúcias dessa busca pelo equilíbrio mental. O comando do time ficou com Robert J. Vallerand, referência em processos motivacionais e funcionamento ótimo, junto de sua equipe da Universidade do Quebec em Montreal. O que eles buscaram? Responder à questão: por que algumas pessoas são, afinal, mais felizes que outras? E – spoiler – a resposta vai muito além de apenas fazer o que se gosta.
A paixão harmoniosa: o primeiro pilar de um cérebro positivo
Em estudos anteriores, a equipe de Vallerand definiu paixão como aquele forte apreço por uma atividade que o indivíduo gosta, acha importante e, claro, investe tempo e energia. Quando esse investimento se torna parte da sua identidade, a ciência chama de “paixão harmoniosa” – em oposição àquela paixão que vira obsessão.
O novo estudo, publicado na revista Motivation and Emotion, mergulha ainda mais fundo. Eles acompanharam jovens adultos dos EUA e do Canadá em cinco experiências ao longo de vários anos. O primeiro passo? Descobrir se quem apresenta altos níveis de bem-estar sente paixão por muitos aspectos da vida ou só por um só. Foram avaliadas quatro áreas: estudos, hobbies favoritos, relações amorosas e amizades. E sim, os mais felizes demonstravam paixão genuína por todas essas dimensões.
- Estudo
- Hobbies
- Relacionamentos amorosos
- Amizades
Esses são os quatro pilares, e não pode faltar nenhum no combo.
Nem tudo são flores (mas até lavar a louça conta): papel da autorregulação
A equipe então expandiu a análise. Ser feliz é estar apaixonado por tudo o tempo todo? Nem tanto. Ao incluir tarefas menos prazerosas – como trabalhos domésticos e obrigações – descobriram: os mais felizes não sentem paixão por tudo. Na verdade, o diferencial está na autorregulação. Ou seja, motivar-se para tarefas menos agradáveis, não por pressão externa ou para agradar alguém, mas porque escolheram assumir aquela responsabilidade. Autorregulação é a arte do “faço porque decidi, não porque mandaram”.
Numa das experiências, 521 estudantes simularam um dia típico (com direito a limpeza, estudos e lazer) e relataram emoções antes e depois. Resultado: até tarefas mundanas, quando feitas com autonomia, podem gerar emoções positivas. Nada mal para quem achava que só era possível ser feliz relaxando!
Paixão harmoniosa X paixão obsessiva: a bússola está na motivação
Os pesquisadores ainda testaram se o tipo de motivação influencia o envolvimento em atividades boas e nem tão boas. Participantes com motivação autônoma mostraram paixão harmoniosa pelas atividades agradáveis e boa autorregulação para encarar os deveres. Já quem era guiado por controle externo, esses sim caíam mais na armadilha da paixão obsessiva, que pode acabar minando o bem-estar.
Na etapa final, acompanhando estudantes ao longo de seis meses, ficou claro: as experiências e emoções cotidianas têm poder duradouro de moldar o bem-estar psicológico. Manter paixão harmoniosa em várias áreas e encarar obrigações com autonomia ajudam a criar um ciclo positivo que se consolida ao longo do tempo.
Conclusão: Felicidade de verdade é plural, consciente e (um pouco) autodirigida
Para fechar, Vallerand destaca: investir em várias paixões protege contra o perigo de se tornar obsessivo por apenas uma coisa – e, cá entre nós, quem nunca viu isso acontecer? Alternar interesses e praticar a autorregulação proporciona resiliência mental e traz vantagens adicionais para o bem-estar a longo prazo.
Ainda que o estudo tenha usado questionários que dependem do relato dos participantes, abre caminho para novas pesquisas com métodos ainda mais sofisticados.
Então, resumindo para não deixar dúvidas:
- A felicidade verdadeira nasce da combinação de paixão harmoniosa em vários campos da vida.
- Nem tudo precisa (ou deve) ser apaixonante – o importante é escolher, assumir, regular-se.
- A autonomia cotidiana cria boas ondas emocionais que fortalecem o bem-estar com o tempo.
Seja na ficção científica ou arrumando o armário, pequenas escolhas conscientes ecoam na mente. E você – já descobriu qual será o seu próximo pilar?