“Quando lemos o Evangelho, uma das frases que todos conhecemos é ‘bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus’. Todos queremos estar entre os pobres do Senhor porque a nossa vida é um dom de Deus e a recebemos com muita gratidão”
Que a indiferença não vença. A invocação na oração universal da Missa presidida pelo Papa no Vaticano por ocasião do IX Dia Mundial dos Pobres ressoa na homilia que retoma em vários trechos a Exortação Apostólica Dilexi te dedicada precisamente ao amor aos pobres. O apelo aos governantes, para que contribuam para o crescimento de todos e construam uma comunidade mais solidária, vem do Povo de Deus e o Pontífice torna-se ainda o seu porta-voz, na esteira do seu antecessor Francisco. Meia hora antes da celebração na basílica, onde estão reunidos cerca de 6 mil fiéis, o Pontífice aparece no adro e saúda uma Praça de São Pedro lotada naquele momento com 12 mil pessoas e à qual promete voltar para assistir ao Angelus. Algumas palavras de boas-vindas tornam a liturgia ainda mais inclusiva: “Quando lemos o Evangelho, uma das frases que todos conhecemos é ‘bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o Reino dos Céus’. Todos queremos estar entre os pobres do Senhor porque a nossa vida é um dom de Deus e a recebemos com muita gratidão. com muita fé e saibam que estamos todos unidos em Cristo”, destaca o Pontífice.
«Onde as esperanças humanas parecem esgotar-se, postas à prova pelos acontecimentos dramáticos da história, o que resta é ancorar-nos na fonte firme que é o Senhor: Ele não faz perecer um só fio de cabelo da nossa cabeça, como afirma o hodierno Evangelho de Lucas». Leão, na homilia da Missa deste ano litúrgico que se aproxima do fim, realça este traço fundamental da fé cristã e inspira coragem, na certeza de que a obra dos ímpios em detrimento dos indefesos e dos pobres será erradicada e brilhará o sol da justiça. É importante sermos testemunhas perseverantes e verdadeiras, para que a vida seja salva. Os pobres foram os primeiros a ver Jesus, esta aliança não pode ser quebrada e só pode ser renovada no júbilo: “Nas perseguições, nos sofrimentos, nas dificuldades e nas opressões da vida e da sociedade, Deus não nos deixa sozinhos.
O Papa põe o dedo na ferida da solidão que, afirma, atravessa as diversas formas de pobreza das sociedades contemporâneas, tanto materiais como espirituais, e atinge especialmente os jovens. “É este muro que deve ser derrubado, superando o individualismo e a superficialidade: olhar para a pobreza de forma integral, porque certamente é necessário às vezes responder às necessidades urgentes, mas mais geralmente é uma cultura de atenção que devemos desenvolver, precisamente para quebrar o muro da solidão. Por isso queremos estar atentos aos outros, a cada um, onde estamos, onde vivemos, transmitindo esta atitude já na família, para vivê-la concretamente nos locais de trabalho e de estudo, nas diferentes comunidades, no mundo digital, em todos os lugares, empurrando-nos para as margens e tornando-nos testemunhas da ternura de Deus”.
A apreensão do Papa não pode deixar de ir aos cenários de guerra em diversas regiões do mundo que, sublinha, “parecem confirmar-nos num estado de impotência. Mas a globalização da impotência surge de uma mentira – afirma –, da crença de que esta história sempre foi assim e não pode mudar. O apelo do Papa dirige-se em particular aos líderes políticos: “A pobreza desafia os cristãos – diz ele -, mas desafia também todos aqueles que têm papéis de responsabilidade na sociedade. Por isso, exorto os chefes de Estado e os líderes das nações a ouvirem o grito dos mais pobres. Não pode haver paz sem justiça e os pobres recordam-nos isto de muitas maneiras, com a sua migração, bem como com o seu grito, muitas vezes sufocado pelo mito do bem-estar e do progresso que não leva todos em conta, e na verdade esquece muitos criaturas, deixando-as entregues ao seu destino.”
“Comprometamo-nos todos”, é a exortação do Sucessor de Pedro que recorda as palavras do apóstolo Paulo aos Tessalonicenses, onde uma vida centrada em si mesmo não ajuda, assim como não ajuda aquilo que o Papa define como “um intimismo religioso que se traduz no desligamento dos outros e da história”. Há um povo que coloca o coração e as mãos à disposição dos mais vulneráveis, daqueles que vivem como descartados. Para eles vai o pensamento de Leone: “Aos trabalhadores da caridade, aos muitos voluntários, a quantos trabalham para aliviar as condições dos mais pobres, expresso a minha gratidão e, ao mesmo tempo, o meu encorajamento a sermos uma consciência cada vez mais crítica na sociedade. O tema do bem comum deve ser considerado o objectivo que deve orientar as sociedades cada vez mais marcadas por profundas desigualdades, por vezes agravadas pelo desenvolvimento tecnológico inescrupuloso: uma das invocações à oração universal em que se ganha o pão através do retorno do trabalho”, é o anseio partilhado pelos fiéis.
Tratar os pobres libertando-os dos rótulos sociológicos ou dos julgamentos precipitados, mas considerando-os na sua plena dignidade. É ainda recomendação do Papa que espere uma abertura tal que construa uma convivência humana que seja espaço de fraternidade. “Ninguém excluído”, reitera. “O perigo de vivermos como viajantes distraídos, descuidados do destino final e desinteressados por quem partilha connosco o caminho está sempre ao virar da esquina”, destaca o Pontífice. Daí o exemplo dos santos que fizeram da sua opção preferencial pelos pobres um estilo de vida, uma vocação. “Neste Jubileu dos Pobres, inspiremo-nos no testemunho dos Santos que serviram Cristo nos mais necessitados e o seguiram no caminho da pequenez e da privação. Em particular – conclui o Papa Leão