O Alentejo será o coração de uma iniciativa inédita na Europa. Nos concelhos de Vila Viçosa e Alandroal, no distrito de Évora, o primeiro grande Santuário de elefantes europeus que passaram a vida em cativeiro. O anúncio foi feito hoje pelos promotores do projeto, a organização sem fins lucrativos Pangea, registada tanto no Reino Unido como em Portugal.
A iniciativa, que conta com a plena colaboração das Câmaras Municipais de Alandroal e Vila Viçosa e com o apoio da Direção Geral de Alimentação e Veterinária (DGAV) e do Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), visa oferecer “assistência ao longo da vida aos elefantes reabilitados de jardins zoológicos e circos de todo o continente”.

Kate Moore, diretora geral da Pangea, explicou à agência Lusa a filosofia do projeto: “Não estamos aqui para salvar elefantes, mas para trabalhar com pessoas que já possuem elefantes e procuram uma alternativa para estes animais”.
O objetivo é criar um espaço natural onde os animais possam “movimentar-se livremente, alimentar-se e socializar, tal como fariam no seu habitat natural”. O santuário se concentrará em casos prioritários, como “elefantes em países onde os circos foram proibidos de usar animais selvagens” ou aqueles de “zoológicos que não querem mais ter elefantes, mas não têm para onde enviá-los”.
“Queremos ajudar estes circos, jardins zoológicos e governos a dar um lar a estes elefantes”, enfatizou Moore, “fornecendo-lhes um habitat natural onde possam circular livremente. Mas, ao mesmo tempo, com cuidados veterinários e de criação”.
Porque o Alentejo é a casa ideal para este projeto
A escolha de Portugal, e em particular desta zona do Alentejo, não foi acidental. Após um estudo de viabilidade aprofundado a nível europeu, “il Portugal foi selecionado devido às suas condições clima e habitats ideais”, afirmaram os promotores.
A propriedade de 402 hectares, adquirida pela Pangea em 2023, foi considerada perfeita para as necessidades destes gentis gigantes. Kate Moore acrescentou que a propriedade foi considerada “a melhor da raça pela sua topografia, com colinas muito onduladas ideais para elefantes, um habitat muito diversificado e uma área privada com muita água”.
Desde a aquisição, a organização tem trabalhado intensamente na “gestão do habitat, melhorando a sua qualidade e garantindo que seja o mais diversificado possível”. Trabalhos preparatórios fundamentais para garantir que o espaço esteja preparado para receber os seus futuros moradores nas melhores condições possíveis.
Os primeiros passos e a chegada de Kariba: o santuário europeu de elefantes ganha forma
O projeto não está apenas no papel, mas já está vendo a luz. A fase de construção começou “há cerca de dois meses”, conforme confirmou Kate Moore, com a construção do “primeiro celeiro e da primeira cerca”. Estas obras críticas de infraestrutura “poderão ser concluídas em dezembro” deste ano.
A espera pelos primeiros convidados está quase no fim. O diretor-geral prevê “receber os primeiros elefantes no início de 2026, entre janeiro e março”. O santuário espera hospedar “entre 20 e 30” elefantes. Um número que, como especifica Moore, “avaliaremos constantemente” com base em pesquisas em toda a Europa sobre o espaço necessário e o bem-estar animal.
O primeiro elefante a chegar já tem nome e história. “Esperamos que o primeiro elefante chegue no início de 2026 e o nome dela é Kariba”, disse Moore aos repórteres. “Este é um elefante que atualmente vive num zoológico na Bélgica.” Kariba, vinda do Zimbabué, viveu “os últimos 40 anos em cativeiro” em vários jardins zoológicos europeus e vai agora “terminar os seus dias” na paz do santuário alentejano.
Um investimento significativo para o futuro do santuário europeu de elefantes


Um projeto desta magnitude requer um compromisso financeiro significativo. Embora inicialmente tenha definido o investimento como “significativo”, Kate Moore especificou posteriormente que, durante um período de aproximadamente 10 anos, a Pangea pretende “investir 15 milhões de euros”. Esses fundos provêm inteiramente “de doações feitas por organizações e pelo público”.
Esses recursos serão utilizados não apenas para habitat, mas também para instalações de última geração. Miguel Repas, principal conselheiro técnico e biólogo da Pangea, explicou que o santuário terá estábulos dedicados. Haverá também um centro central de serviços de apoio e, sobretudo, vedações especiais “preparadas para suportar uma carga de 60 toneladas”. A prioridade é garantir a segurança dos animais e do ambiente circundante.
Repas sublinhou que para estes elefantes, que “nunca tiveram contacto com a natureza”, o santuário será um local onde “reaprenderão a usar a natureza e a conviver” com os da sua espécie.
Não apenas os elefantes: o impacto do santuário europeu na comunidade local


A Pangea deixou claro que a ligação com o território é uma prioridade. “Já estamos a trabalhar com algumas empresas locais com a intenção de criar novas parcerias e garantir que também empregamos pessoas locais”, disse Kate Moore. O projeto envolve a criação de 10 empregos diretos e entre 30 e 50 empregos indiretos.
Além disso, embora o projecto envolva especialistas internacionais no bem-estar dos elefantes, a Pangea também proporcionará “um programa de formação para desenvolver conhecimentos locais”.
Os prefeitos locais expressaram grande entusiasmo. Inácio Esperança, presidente da Câmara de Vila Viçosa, sublinhou como os terrenos, antes inutilizados, serão agora “recuperados do ponto de vista ambiental” e utilizados para “turismo educativo, turismo de formação, grupos de estudantes, investigadores”.
Um projeto pioneiro: como vai funcionar
João Grilo, presidente da Câmara de Alandroal, destacou os benefícios em termos de desenvolvimento económico e conservação, revelando que será criado no seu concelho um centro interpretativo do santuário. Este espaço irá “preencher a lacuna entre o santuário e os visitantes e facilitar a comunicação com os jovens e as comunidades educativas”.
Para garantir a missão primordial, “tranquilidade, paz e liberdade” aos animais, como disse Miguel Repas, o Santuário de elefantes europeus não será aberto ao público regularmente. No entanto, Kate Moore admitiu que haverá dias abertos anuais. “Pessoas da comunidade local e outras que doe para o projetoatravés de sorteio ou lotaria”. Além disso, será criado um “centro de descoberta” para oferecer experiências e interações direcionadas, e serão ativados protocolos com a comunidade científica para “estudos e projetos científicos que fornecerão informações fundamentais para o desenvolvimento do conhecimento sobre o bem-estar dos elefantes”.
Leia outros artigos relacionados sobre Leggo Algarve: