O projecto insere-se no âmbito do Tratado de Amizade, Parceria e Cooperação entre os dois países, assinado em Benghazi a 30 de Agosto de 2008.
Líbia e Itália assinaram hoje o contrato para a construção do sublote 4.3 da rodovia costeira em Trípoli Emsaad-Ras Jedirconhecida como a “autoestrada da paz”, com um valor estimado em cerca de 700 milhões de euros. A cerimónia, organizada pela Autoridade Rodoviária Emsa’ed-Ras Jedir (ERMA), sob o patrocínio do Primeiro-Ministro da Líbia Abdulhamid Dabaibacontou com a presença do Subsecretário de Relações Exteriores e Cooperação Internacional, Giorgio Sillijuntamente com os líderes do Governo de Unidade Nacional (Gun). Para o lado italiano, a assinatura foi feita pela empresa Todini Costruzioni Generali, que foi adjudicatária do projeto e já formalmente designada em 29 de outubro de 2024 durante o Fórum Empresarial Itália-Líbia através da carta de aceitação assinada com Erma.
Desde o início da cerimônia, Silli insistiu no valor geopolítico da obra. “A ‘estrada da paz’ é um projecto estratégico que pretende ligar o Magrebe e o Levante”, declarou o subsecretário numa mensagem publicada no X e depois reiterada durante o seu discurso em Trípoli. O subsecretário lembrou que a infra-estrutura foi criada no âmbito do Tratado de Amizade Ítalo-Líbia de 2008, um compromisso que marca a cooperação bilateral há quase duas décadas. “Um grande projecto nascido com o Acordo de Amizade que beneficiará toda a Líbia para ligar o Magreb e o Levante e fortalecer o vínculo entre os nossos países”, disse ele.
O subsecretário sublinhou então várias vezes o valor político da relação com Trípoli: “O governo italiano reitera que a Líbia pode contar com Roma e com o seu compromisso de 360 graus com um país que é estratégico para nós”. Em termos de método, Silli insistiu na ideia de cooperação igualitária: “Não pode haver parceria sem confiança, que só pode existir entre pares e amigos. A nossa abordagem é trabalhar na crença de que jogos de soma zero não existem e que a cooperação deve ser vantajosa para ambas as partes”.
Nas suas declarações, Silli interpretou a assinatura como um passo significativo numa fase que poderá abrir margens de estabilização para a Líbia. “Acreditamos que estamos numa fase que abre uma janela de oportunidade para a estabilização da Líbia, que devemos aproveitar em conjunto, de forma complementar”, explicou. O subsecretário reiterou o compromisso de Roma: “A Itália está consistentemente comprometida com a estabilização e a unidade da Líbia, objetivos aos quais o povo líbio aspira e merece. Neste sentido, sentimos a responsabilidade da nossa relação de amizade”.
Silli também apelou à coordenação com os Estados Unidos, sublinhando que “Roma e Washington estão profundamente alinhados no futuro político da Líbia”. Para o subsecretário, o futuro do país norte-africano “constrói-se em conjunto: por um lado o relançamento do processo político facilitado pelas Nações Unidas, por outro o compromisso renovado dos EUA em nome da reconciliação nacional”.
O contrato hoje assinado diz respeito ao sublote 4.3, no valor aproximado de 700 milhões de euros, correspondente a um troço de cerca de 160 quilómetros entre Zuwara e Ras Jedir, na fronteira com a Tunísia. Esta é a parte terminal oeste do quarto troço da auto-estrada, um troço com 395 quilómetros de extensão no total que também inclui os troços Misrata – Al Khoms (4,1, 104 quilómetros) e Al Khoms – Zuwara (4,2, 131 quilómetros). O sublote 4.3 é considerado um dos segmentos mais esperados de todo o corredor rodoviário, especialmente porque liga a costa da Líbia às redes tunisinas e permite a continuidade da rota de leste a oeste ao longo do Mediterrâneo. Toda a autoestrada – 1.750 quilómetros com duas faixas de rodagem com três faixas em cada sentido – ligará Emsaad, na fronteira egípcia, a Ras Jedir, abrindo um eixo logístico crucial para o comércio, a mobilidade e a integração dos mercados regionais.
Internamente, o Governo de Unidade Nacional aprovou em Outubro de 2024 a compensação pelas expropriações necessárias ao longo do quarto troço do traçado. O encargo, totalmente suportado pelo lado líbio, constitui um requisito indispensável para o início dos trabalhos e representa um compromisso financeiro significativo para Trípoli, complementar à contribuição italiana prevista pelo Tratado de 2008. Este último estabelece um compromisso global de 5 mil milhões de dólares, equivalentes a 3,6 mil milhões de euros a valores de 2009, em 20 anos de contribuições anuais de 180 milhões de euros até 2028. A construção da autoestrada é considerada a principal infraestrutura deste acordo bilateral.
Fontes políticas de alto nível na Líbia descrevem a assinatura de hoje como “a reativação oficial do maior projeto de infraestrutura que a Itália e a Líbia já compartilharam desde 2008”. A obra é considerada um passo decisivo não só para a modernização dos transportes, mas também para a normalização das relações internas da Líbia e a consolidação da cooperação económica com a Itália.
No seu discurso oficial, Silli resumiu o significado político do dia: “Com a criação desta infra-estrutura e a contribuição financeira italiana, fechamos com o passado enquanto olhamos para o futuro, com uma obra que liga não só a Líbia, mas que servirá todo o Norte de África, com o compromisso de ligar o Magrebe ao Levante”. O subsecretário acrescentou que “com a assinatura de hoje, a Todini fica encarregada da construção do lote 4.3 da autoestrada e há duas empreitadas a executar.
Para o representante do governo italiano, a assinatura de hoje marca a abertura de “uma nova fase para a cooperação ítalo-líbia”. “A Itália continuará a mobilizar a comunidade internacional a favor da Líbia para contribuir para a paz de toda a região, também apoiando iniciativas multilaterais e de estabilização”, disse ele. Posição partilhada pelos responsáveis diplomáticos presentes na cerimónia, que interpretaram o acontecimento como “um sinal tangível do regresso da Itália como ator central na reconstrução da Líbia”.