As missões no estrangeiro dos filhos de Khalifa Haftar tornaram visível uma competição de poder agora estruturada
O anúncio da nova “Autoridade Superior das Presidências da Líbia” pelas instituições de Trípoli desencadeou a reacção imediata de Benghazi, que a classificou como “nula e inconstitucional”. Entretanto, as missões no estrangeiro dos filhos de Khalifa Haftar – entre Moscovo, Ancara e Paris – tornaram visível uma competição de poder agora estruturada.
A iniciativa anunciada em Trípoli visa, nas intenções oficiais, criar uma coordenação estável entre o Conselho Presidencial, o Governo de Unidade Nacional (GUN) e o Conselho Superior de Estado. No entanto, Benghazi rejeitou-a sem hesitação, reiterando que apenas a Câmara dos Representantes tem a prerrogativa de estabelecer novos órgãos de soberania. A disputa traz a Líbia de volta à paralisação dos últimos anos: dois governos, dois centros de tomada de decisão e nenhuma trajetória política partilhada, apesar da pressão das Nações Unidas.
Para complicar ainda mais o quadro, intervêm os movimentos paralelos da família Haftar, envolvida numa sequência apertada de reuniões internacionais: Saddam Haftar foi recebido em Ancara pelo Ministro da Defesa Yasar Güler e o ministro das Relações Exteriores Hakan Fidan; Belgassem Haftar encontrou-se com o Ministro das Relações Exteriores da Rússia em Moscou Sergei Lavrov; no dia anterior, em Paris, esteve presente – juntamente com o magnata de Misrata Mohamed Raied – a assinatura de um memorando entre a Autoridade Nacional de Desenvolvimento, perto da Cirenaica, e a Business France. Enquanto isso, cresce a expectativa na Cirenaica por uma possível visita à Itália Khaled Haftar, Chefe do Estado-Maior do Exército Nacional da Líbia. No terreno, a frente oriental restabelece os laços tribais nas áreas sensíveis em torno da capital: reuniões em Tarhuna, Bani Walid, Zintan e Zawiya sugerem a tentativa de construir um cinturão de influência em torno de Trípoli, uma pressão político-tribal que apoia – e por vezes substitui – o confronto institucional.
Para Claudia Gazzini, analista sênior do International Crisis Group (Icg), o choque institucional entre Oriente e Ocidente é acima de tudo espetacular. A nova Autoridade, afirma, é “um gesto cosmético” inserido num guião em que “há um elemento de farsa em todas estas manobras, objecções, polémicas sobre se o triunvirato ou não”. Por trás das escaramuças, segundo o analista, prevalece a lógica do compromisso clandestino: “Os dois lados chegam a um acordo, encontram-se e fazem acordos: esta é a realidade”.
A referência é ao recente acordo financeiro entre o Oriente e o Ocidente, estimado em 20 mil milhões de dinares (cerca de 5 mil milhões de euros), negociado “à porta fechada” por Saddam Haftar e Ibrahim Dabaiba e depois entregue ao Parlamento e ao Conselho Superior de Estado como um ato já definido. “O Banco Central, a Câmara e o Conselho de Estado fazem o papel de figurantes num drama dirigido por outros atores”, observa Gazzini, que denuncia a opacidade do acordo. A narrativa do conflito institucional serve, portanto, para manter um equilíbrio precário: “No fundo, prevalece o acordo para manter tudo como está, consolidando o status quo. Tudo em detrimento dos líbios”.
Gazzini recorda também o papel crescente dos Estados Unidos, empenhados em promover formas de cooperação em segurança na zona de Sirte, onde a Africom anunciou o exercício “Flintlock 2026” com a participação de forças do Oriente e do Ocidente. A nível político, o analista identifica então um sinal mais profundo: a ambição do Marechal Haftar de uma futura proclamação presidencial. “Os seus recentes discursos aos líderes tribais, nos quais apela à mobilização popular, devem ser lidos como um convite para apoiar a proclamação da sua presidência”, declara.
Para Tarek Megerisi, investigador sénior de política do Conselho Europeu de Relações Externas (Ecfr), a crise que eclodiu em torno da nova Autoridade tem raízes económicas e não institucionais. Segundo o analista, o anúncio da nova estrutura deveria ter coincidido com a formalização do acordo financeiro intermediado pelos Estados Unidos. Mas tudo desmoronou quando Saddam Haftar “retirou o consentimento no último segundo”, argumentando que “uma divisão 50-50 das receitas do petróleo não é justa” e que a Cirenaica “merece uma parcela maior”.
A partir desse momento – explica Megerisi – Benghazi começou a “flexionar os músculos em torno de Tarhuna, Zintan e outras áreas para pressionar Trípoli”. Ao mesmo tempo, Trípoli vê-se numa posição de força graças à sua relação privilegiada com Washington: “O governo Dabaiba vê-se como o principal parceiro dos americanos, do qual retira legitimidade”. Mas para Megerisi, por trás das demonstrações de força reside uma realidade inalterada: “Eles são fracos exatamente como sempre foram”. A nova Autoridade, conclui, é ao mesmo tempo uma resposta ao “impulso americano para racionalizar o processo de tomada de decisão” e uma tentativa do Primeiro-Ministro Dabaiba para “manter Memphis e o Conselho Presidencial mais próximos”, apresentando o Ocidente como um bloco mais coeso face à pressão da família Haftar.
Jalel Harchaoui, analista independente e especialista na Líbia, identifica três dinâmicas principais. A primeira diz respeito à Turquia, que há meses “faz tudo” para evitar que Dabaiba enfraqueça a poderosa milícia Rada, ao mesmo tempo que “intensifica uma estratégia de sedução” em relação à família Haftar. Uma via dupla que, segundo o especialista, cria uma pressão existencial no campo político de Trípoli. A segunda dinâmica é a intervenção dos EUA no compromisso financeiro, definido por Harchaoui como um acordo “fraco e pouco claro” que “favorece a família Haftar” no acesso aos fundos de reconstrução através do Banco Central.
O terceiro elemento diz respeito às Nações Unidas. A missão da UNSMIL continua a falar de um “novo governo unificado”, uma fórmula que “cria problemas” para Dabaiba porque implica a sua possível substituição. O processo de “diálogo estruturado” atraiu milhares de candidaturas, conferindo nova legitimidade à iniciativa da ONU e aumentando a pressão sobre a capital. Perante esta perspectiva, explica Harchaoui, o primeiro-ministro Dabaiba agiu no sentido de “obter um maior alinhamento” do presidente do Conselho Presidencial Menfi e do chefe do Conselho Superior de Estado Takala. A iniciativa do triunvirato, conclui, serve para nos lembrar que o primeiro-ministro “não tem intenção de deixar o poder num futuro próximo”.
Por um lado, Trípoli tenta apresentar-se como um centro institucional ordenado e compacto; por outro lado, Benghazi reivindica uma maior parcela das receitas do petróleo e intensifica a sua diplomacia paralela. No meio, os Estados Unidos e a Turquia pressionam pela estabilização funcional, enquanto a Rússia e os Emirados Árabes Unidos continuam a ser os pilares da Cirenaica. Todos se declaram fortes. Todo mundo teme ser fraco. Entretanto, a Líbia continua suspensa: dois governos, um único tesouro petrolífero e – ainda – nenhum roteiro partilhado. O sentimento partilhado pelos três analistas é que o país continua preso numa estabilidade circular: as crises mudam de nome, mas não de substância. Uma dinâmica que lembra a famosa intuição do Leopardo: “Se quisermos que tudo fique como está, tudo deve mudar”.