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Líbia: Conflito Noc-Banco Central sobre as receitas do petróleo, o ponto crucial são os gastos

Para o presidente do Noc, o regresso do tema da “queda de receitas” ao debate público teria sido transformado num instrumento acusatório, utilizado para mascarar questões críticas mais profundas na gestão das finanças públicas

No meio do debate sobre a escassez de liquidez e as dificuldades no pagamento dos salários públicos, o presidente da Corporação Nacional do Petróleo (Noc), Masoud Suleimanrejeitou as acusações feitas pelo Banco Central da Líbia (CBL) sobre o alegado declínio nas receitas petrolíferas, definindo como “enganoso” atribuir a responsabilidade pela actual crise financeira apenas à EPN. É o que emerge de um editorial publicado pelos meios de comunicação líbios “Fawasel Media”, que reconstrói as idas e vindas entre as duas principais instituições económicas do país. Segundo Suleiman, as declarações do governador da CBL não tiveram em conta as explicações técnicas e financeiras já prestadas numa reunião oficial no Tribunal de Contas, na presença do próprio governador, que nessa ocasião manifestou compreensão pela dinâmica das flutuações nos fluxos de caixa do petróleo. Para o presidente do Noc, o regresso do tema da “queda de receitas” ao debate público teria sido transformado num instrumento acusatório, utilizado para mascarar questões críticas mais profundas na gestão das finanças públicas.

Quanto ao mérito, Suleiman sustenta que o problema não reside tanto no nível das receitas petrolíferas, mas na ausência de prioridades claras de despesa por parte do Banco Central. Uma lacuna que, na sua opinião, teria enfraquecido a capacidade do Estado de cumprir compromissos essenciais. Neste contexto, o número um do Noc manifestou surpresa com o alarme levantado pelo Cbl sobre a impossibilidade de cobrir os salários de dezembro, após o anúncio da venda de 2,1 mil milhões de dólares em moeda estrangeira na primeira quinzena do mês. Um número que, segundo Suleiman, evidenciaria uma “falha estrutural” na alocação de recursos, agravada pela não alocação de divisas para a importação de combustíveis, com repercussões nos abastecimentos estratégicos.

Por seu lado, a NOC justifica a contracção das receitas com factores concomitantes: a não liquidação do orçamento de 2025, o desembolso de menos de 20 por cento do orçamento de 2024, a queda dos preços internacionais do petróleo bruto – estimados em cerca de 11 dólares por barril face ao ano anterior – e o aumento do consumo interno de combustíveis e gás. A versão do Banco Central, porém, permanece oposta. O instituto anunciou que, entre o início de dezembro e o dia 21 deste mês, as receitas petrolíferas transferidas não ultrapassaram os 581 milhões de dólares, falando numa “forte queda” e atribuindo explicitamente a responsabilidade à CPN por uma entrada insuficiente de recursos. Num tom definido pelos observadores como invulgarmente duro, a CBL relacionou esta tendência ao agravamento da crise financeira e à dificuldade do Estado em cumprir as suas obrigações.

Já em Novembro, o saldo receitas-despesas do Banco Central apresentava um défice de cerca de 7,8 mil milhões de dólares, explicado pela descida prolongada das receitas petrolíferas a partir de Setembro e coberto – segundo o instituto – com instrumentos temporários como retornos de investimentos, depósitos e reservas de ouro. O editorial da “Fawasel Media” chama ainda a atenção para a utilização, por algumas empresas controladas pela Noc, do chamado procedimento de “pagamento por conta”, que envolve a utilização de financiamento externo garantido por futuros embarques de petróleo bruto para cobrir despesas operacionais. Uma prática que fontes da Noc definem como “legal e limitada”, mas que levanta questões sobre o seu real impacto nos fluxos destinados ao Banco Central.

Por último, a comunicação social recorda como, nos últimos anos, a NOC tem beneficiado de um financiamento público significativo para apoiar o objectivo estratégico de elevar a produção para dois milhões de barris por dia. Os documentos citados por “Fawasel” falam de programas financeiros lançados a partir de 2022, de gestão de recursos incluídos no terceiro capítulo do orçamento do Estado e de uma dotação excepcional de 34,2 mil milhões de dinares concedida no mesmo ano. Um quadro que, segundo a análise, compara a narrativa oficial de deficiências estruturais com uma realidade financeira mais complexa, no centro de um embate institucional destinado a reflectir sobre a estabilidade económica do país.

Beatriz Marques
Beatriz Marques
Como redatora apaixonada na Rádio Miróbriga, me esforço todos os dias para contar histórias que ressoem com a nossa comunidade. Com mais de 10 anos de experiência no jornalismo, já cobri uma ampla gama de assuntos, desde questões locais até investigações aprofundadas. Meu compromisso é sempre buscar a verdade e apresentar relatos autênticos que inspirem e informem nossos ouvintes.