O dia 17 de Fevereiro continua a ser a data simbólica da queda da Jamahiriya e do início de uma nova ordem política.
Hoje celebramos na Líbia o 15º aniversário da revolução de 17 de Fevereiro de 2011, num clima marcado pelo assassinato, há apenas duas semanas em Zintan, de Saif al Islam Gaddafimorto em 3 de fevereiro por um comando armado que invadiu sua casa após desativar as câmeras de vigilância, e na véspera do briefing do representante especial das Nações Unidas, Hanna Tetteh, ao Conselho de Segurança. O assassinato ocorreu enquanto decorriam contactos indirectos entre círculos próximos de Trípoli e Benghazi, apoiados pelos Estados Unidos, para encorajar a aproximação entre as duas lideranças rivais.
O quadro continua marcado por uma divisão institucional que perdura desde 2014. Por um lado, está o Governo de Unidade Nacional com sede em Trípoli, liderado pelo Primeiro-Ministro Abdulhamid Dabaiba e reconhecido pelas Nações Unidas; do outro, está o executivo paralelo sediado em Benghazi, apoiado pela Câmara dos Representantes e ligado às forças do Marechal Khalifa Haftar. O Exército Nacional Líbio (ELN) controla grandes porções do Leste e do Sul do país e consolidou nos últimos anos uma estrutura de comando em que os filhos de Haftar – Saddam e Khaled – ocupam cargos de topo, formalizando uma sucessão já consolidada de facto. Nesta pintura, a figura de Saif al Islam continuou a representar um elemento simbolicamente sensível: politicamente enfraquecido e procurado pelo Tribunal Penal Internacional pelo seu papel na repressão de 2011, manteve, no entanto, uma capacidade de mobilização em algumas áreas tribais do Sul, alimentando a desconfiança tanto em Trípoli como em Benghazi.
Voltando ao nível político, o homem forte da Cirenaica, Haftar, expressou apoio formal nos últimos dias ao roteiro das Nações Unidas para as eleições presidenciais e parlamentares, ilustrado pela representante especial Hanna Tetteh. O roteiro assenta em três pilares: definição de um quadro jurídico-eleitoral credível; unificação de instituições; lançamento de um diálogo estruturado sobre governação, economia, segurança e reconciliação. O contexto económico contribui para tornar o aniversário menos comemorativo. De acordo com o último Monitor Económico da Líbia do Banco Mundial, em 2025 o PIB real cresceu 13,3 por cento, impulsionado em grande parte pelo sector petrolífero (+17,4 por cento), com a produção média a subir para cerca de 1,3 milhões de barris por dia. Nos primeiros nove meses do ano, o Governo de Unidade Nacional registou um excedente igual a 3,6 por cento do PIB. Contudo, as tensões na frente monetária ressurgiram em Janeiro: o dinar ultrapassou os 9 em relação ao dólar no mercado paralelo, reflectindo dificuldades no acesso a moeda estrangeira e atrasos na emissão de cartas de crédito.
A dependência estrutural dos hidrocarbonetos permanece evidente também à luz da recente ronda de licitações da National Oil Corporation (o organismo petrolífero estatal da Líbia), a primeira desde 2008, que viu a atribuição de apenas cinco blocos dos 20 colocados a concurso. O resultado, abaixo do esperado, confirma o interesse internacional, mas também a cautela dos operadores num contexto político ainda fragmentado. Neste cenário, o 17 de Fevereiro situa-se entre a memória e o presente, entre a legitimação política e a desilusão social. A data permanece gravada na consciência colectiva como o momento que pôs fim a mais de quatro décadas de regime, mas 15 anos depois a celebração acontece num país que continua a procurar o equilíbrio institucional e a estabilidade económica duradoura. O assassinato de Saif al Islam, duas semanas após o aniversário, lembrou-nos como o passado permanece entrelaçado com o presente: para alguns, uma tentativa de desestabilizar um diálogo ainda frágil entre o Oriente e o Ocidente, para outros, a remoção de uma “terceira roda” num equilíbrio já precário. Em ambos os casos, a transição na Líbia continua a ser uma história em aberto.