Figura africana nas origens, latina na formação e universal no pensamento, Santo Agostinho ressurge hoje como chave cultural e política para interpretar o Mediterrâneo contemporâneo e para reforçar os laços entre a Itália e a Argélia, numa fase de cooperação crescente e de diálogo renovado entre as duas margens do mar. Esta é a mensagem que emergiu com força na conferência “Santo Agostinho une Itália e Argélia, dois povos pela Paz”, realizada hoje em Roma, na Sala Di Liegro do Palazzo Valentini e organizada pela associação ítalo-árabe Assadakah com o patrocínio da embaixada argelina, com a participação de representantes diplomáticos, académicos e institucionais de todo o Mediterrâneo. O acontecimento acontece, porém, numa data não aleatória: o dia do nascimento de Santo Agostinho, que veio ao mundo em 13 de novembro de 354 em Tagaste, na então província romana da Numídia, hoje Argélia. Um aniversário que assume ainda maior importância à luz do actual pontificado do Papa Leão XIV, o primeiro pontífice agostiniano da história recente, que colocou o Mediterrâneo no centro da sua agenda, como confirma a sua iminente viagem apostólica ao Líbano e à Turquia.
Falando durante os procedimentos, o embaixador argelino na Itália, Mohamed Khelifi, definiu Santo Agostinho como “um símbolo histórico de paz e diálogo” e “uma ponte viva entre a Itália e a Argélia”. A vida do santo, observou, antecipa a própria história do Mediterrâneo como espaço de intercâmbio: “Nascido na Argélia, Santo Agostinho empreendeu uma viagem em busca da verdade. Passou de Roma, na região de Ostia, depois para Milão, onde o encontro com Santo Ambrósio desempenhou um papel fundamental na sua transformação espiritual”. Essa viagem marcou o início “de uma nova fase e de um caminho de fé que gravou o seu nome na eternidade da Itália e da Argélia”. Depois de anos de estudo e reflexão, Agostinho “consagrou a sua vida ao serviço do ser humano, à paz e ao diálogo”, dedicando-se ao ensino, à assistência aos pobres e à construção de uma comunidade fundada no amor, “único caminho para Deus”.
Khelifi recordou o valor das suas obras fundamentais: “Ele escreveu obras eternas como A Cidade de Deus, combinando o pensamento de Platão e a fé, e assim lançou os pilares do pensamento cristão”. Agostinho, acrescentou, «não foi apenas um homem de fé ou um filósofo: apelou ao amor e à unidade entre os povos e ao diálogo entre civilizações e religiões, acreditando que a dignidade humana transcendia todas as fronteiras». A referência do embaixador à oliveira de Tagaste (Souk Ahras) é particularmente evocativa: “Nesta cidade existe a antiga oliveira plantada por Santo Agostinho; a tradição diz que ele sempre se sentava à sombra desta oliveira para meditar”. Um símbolo, acrescentou, que é “um testamento espiritual e um legado vivo que fala ao presente”.
Uma leitura mais geopolítica do legado agostiniano veio do Padre Abdo Raad, fundador da associação Annas Linnas Líbano e Itália. Para o religioso, o Mediterrâneo «não é uma barreira, mas uma articulação que une a África e a Europa», e a figura de Santo Agostinho «confirma-o pela grandeza da sua história e do seu pensamento». O Padre Raad recordou a relevância da liberdade interior que esteve na base do caminho do santo: “Santo Agostinho fez este caminho e esta verdadeira escolha de fé, sabendo que cada um está na sua liberdade. Deste princípio, observou, nasceu a ideia de um Mediterrâneo fundado na dignidade, na liberdade e nas relações: “As diferenças não separam, mas geram relações”. Agostinho, recordou, “não é uma cultura estranha ao Norte de África: faz parte do tecido histórico daquela região”, e a Argélia “é património dos cristãos, dos muçulmanos, de toda a humanidade”. Esta herança partilhada oferece à Itália e à Argélia “a possibilidade de se reconhecerem numa história mediterrânica comum”. Perante os desafios regionais – “interesses económicos divergentes, diversidade religiosa e cultural, terrorismo, migração, segurança, ambiente” – o pensamento de Ippona convida “a transformar dificuldades em oportunidades”. Concluindo, o Padre Raad recordou o significado do ano jubilar: “Esperança e trabalho por um mundo melhor: isto é o que os santos e os justos nos ensinam”.
Um forte apelo à unidade cultural do Mediterrâneo partiu do discurso de Inas Mekkawy, embaixadora delegada da Liga dos Estados Árabes em Itália e junto da Santa Sé. Santo Agostinho, disse ele, “representa a unidade do Mediterrâneo”, figura que testemunha “a continuidade entre as civilizações que moldaram as duas margens do mar durante séculos”. A diplomata recordou o carácter transmediterrânico da vida de Agostinho, atravessada pelas culturas africanas e europeias, e recordou o valor simbólico da igreja de Annaba, que definiu como “um tecido entre as cidades bizantinas e árabes, entre as épocas romana e argelina”. Para evocar a profundidade da memória partilhada do Mediterrâneo, Mekkawy contou um episódio pessoal da sua primeira viagem à Argélia: a visita à estátua de Cleópatra sobranceira ao mar, que descreveu como “a rainha da história”, símbolo de continuidade entre as duas margens. O legado agostiniano, concluiu, é hoje uma ferramenta essencial “para compreender o Mediterrâneo como um espaço único”, um convite a redescobrir a história comum “usando a razão, a cultura e o amor para chegar à luz”.
No seu discurso, o vereador Capitolino Antonio De Santis definiu Santo Agostinho como uma “figura-ponte entre a Itália e a Argélia”, capaz de “oferecer chaves políticas ainda relevantes para o diálogo no Mediterrâneo”. Agostinho, sublinhou, “é uma das personalidades mais significativas da história do pensamento”, nascido na Argélia mas protagonista de um percurso que “atravessou geografias, épocas e culturas”. Recordando a distinção agostiniana entre a cidade terrena e a cidade celeste – “duas orientações do coração humano” – De Santis recordou que dela deriva uma concepção da política como serviço: “A política é um âmbito frágil e necessário, que exige humildade e responsabilidade”. E acrescentou: “A boa política surge do reconhecimento da dignidade da pessoa e do amor ao bem comum”. A figura de Santo Agostinho emerge, portanto, da conferência não apenas como uma referência espiritual, mas como uma chave cultural e geopolítica para a leitura do Mediterrâneo hoje. Uma ponte natural entre a Europa e o Norte de África, capaz de ligar o passado e o futuro, a identidade e o diálogo, e de orientar a diplomacia cultural das duas margens no Mediterrâneo do século XXI.