A porta-voz do governo iraniano sublinhou a legitimidade das manifestações e o “direito ao protesto”, ao mesmo tempo que afirmou que não será tolerado ultrapassar algumas “linhas vermelhas”
O Irão registou hoje o quarto dia de manifestações estudantis em diversas cidades, incluindo a capital Teerão, Mashhad, Isfahan e Yazd. Segundo o que foi noticiado pela “Iran International” – uma emissora da oposição com sede em Londres – há também manifestações em várias escolas do país, e tem havido confrontos com os Basij, as forças paramilitares dos Guardiões da Revolução Islâmica (pasdaran), que teriam espancado alguns estudantes. Os vídeos divulgados pela emissora mostram atos de protesto como a destruição de imagens das autoridades de livros didáticos e a presença de bandeiras com o logotipo da monarquia, além de slogans contra a República Islâmica e pelo retorno do Xá. Por exemplo, na Universidade de Tecnologia de Isfahan, os estudantes gritavam “Seyyed Ali derrubado” em referência ao líder supremo Ali Khameneie “viva o Xá”. Na Universidade Khajeh Nasir, em Teerã, foram gravados cânticos como “Morte ao ditador”, enquanto no Instituto de Arte e Arquitetura cânticos como “Assassino de Khamenei, seu governo é inválido”. Anteriormente, a mesma emissora noticiou a queima da bandeira da República Islâmica e a expulsão de professores e alunos.
Ontem o “Iran International” relatou vários incidentes de protestos em universidades, citando vídeos recebidos pela redação. Numa delas ouvimos o slogan “Mulher, vida, liberdade”, característico dos protestos ocorridos entre 2022 e 2023, enquanto em outras “Viva o Xá” e “Morte a Khamenei”. Há também imagens de outros estudantes em Teerã queimando a atual bandeira do país, ligada à República Islâmica, gritando “Esta é a batalha final, Pahlavi retornará”, em referência ao filho do último xá. Outras imagens divulgadas pela mesma emissora mostram agentes Basij em confronto com estudantes da Universidade de Teerã. Segundo o “Iran International”, também ontem, estudantes da universidade feminina de Alzahra, em Teerão, participaram numa procissão antigovernamental pedindo a restauração do nome original da instituição (fundada em 1964), Universidade Farah Pahlavi, em homenagem à rainha do Irão Farah Pahlavi. Alunos de uma escola na província de Hormozgan, no sul, queimaram imagens do fundador da República Islâmica, Ruhollah Khomeini.
Esta manhã a porta-voz do governo iraniano, Fatemeh Mohajeranisublinhou a legitimidade das manifestações e o “direito ao protesto”, ao mesmo tempo que afirmou que não será tolerado ultrapassar algumas “linhas vermelhas”. “Compreendemos a raiva, mas devemos avançar para um diálogo eficaz. Acreditamos que nem a ciência deve ser interrompida, nem devemos deixar de ouvir as vozes dos manifestantes”, continuou Mohajerani, anunciando a total disponibilidade do governo para ouvir as vozes dos estudantes nas universidades. “O governo participará nas reuniões com os estudantes com a mente aberta e com um sorriso, para ouvir as palavras dos estudantes e intelectuais e perceber as suas responsabilidades”, explicou. Mohajerani definiu a reabertura das universidades como essencial, sublinhando: “A continuidade do ciclo da ciência é o pedido da maioria dos estudantes e das famílias; mesmo nas actuais condições insistimos que o dever da instituição universitária é ouvir a voz dos estudantes e convidá-los ao diálogo.
As universidades iranianas reabriram no sábado, 21 de fevereiro, após quase dois meses de encerramento, oficialmente justificado pelas baixas temperaturas que atingiram o país em janeiro, no contexto de protestos contra o governo. A partir da manhã de sábado, estudantes de várias universidades iranianas organizaram manifestações, protestos e manifestações contra o governo e para homenagear as vítimas dos protestos em massa de Janeiro. “É necessário agradecer aos ministros da Ciência e da Saúde, aos reitores das universidades, aos membros do corpo docente e ao pessoal universitário que contribuem pacientemente para a reabertura das universidades. Sabemos que o caminho da cultura é percorrido em parte com tolerância e paciência, e em parte com conhecimento.