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Governo japonês apresenta reforma radical da imigração para “coexistência ordenada”

Entre as principais medidas incluídas no projeto está a introdução do Sistema Eletrônico Japonês para Autorizações de Viagem (Jesta).

O governo do primeiro-ministro japonês Sanae Takaichi apresentou à Dieta uma proposta radical de reforma da lei de controlo da imigração, no âmbito de uma estratégia que visa a construção de uma “sociedade de convivência ordenada e harmoniosa com os cidadãos estrangeiros”. A disposição, que o governo tem acompanhado de um documento programático de cem páginas, introduz entre as principais inovações um sistema de rastreio antes da chegada de viajantes estrangeiros, bem como o aperto dos critérios e o aumento do preço máximo máximo para emissão de autorizações de residência. O texto será analisado durante a atual sessão parlamentar. Entre as principais medidas previstas no projeto está a introdução do Sistema Eletrônico Japonês de Autorização de Viagem (Jesta), um sistema de autorização eletrônica prévia de entrada no país, desenhado com base em mecanismos semelhantes adotados por outros estados. Espera-se que o sistema entre em vigor no ano fiscal que começa em abril de 2028 e abrangerá viajantes de países isentos de visto. Os visitantes precisarão inserir antecipadamente informações como profissão e objetivo da viagem on-line, que serão verificadas pelas autoridades antes da partida. Ao chegar ao Japão, os viajantes poderão realizar os procedimentos através de portões automáticos com reconhecimento facial. O governo prevê também introduzir uma taxa associada ao procedimento de autorização eletrónica, que ainda não está definida.

O aumento dos fluxos turísticos – 42,7 milhões de visitantes em 2025, um valor recorde também favorecido pela desvalorização do iene – trouxe benefícios económicos ao Japão, mas também alimentou tensões com as comunidades locais devido à sobrelotação e às barreiras linguísticas, suscitando a discussão de novas medidas para gerir o fenómeno. Entre estes está o plano para aumentar as taxas de visto: o custo da emissão de um visto de entrada única poderá aumentar no ano fiscal de 2026 para cerca de 15.000 ienes (83 euros), cinco vezes a taxa atual de cerca de 3.000 ienes. O governo também pretende reforçar os controlos sobre aqueles que deixaram dívidas médicas no Japão no passado. O limite para registar tais casos de insolvência numa base de dados especial poderia ser reduzido para 10 mil ienes (cerca de 56 euros) dos actuais 200 mil ienes, resultando em controlos mais rigorosos nos controlos fronteiriços para aqueles que tentam regressar. O tema dos sistemas de “duplo preço” nas atrações turísticas também surgiu no debate. Alguns locais estão experimentando preços diferenciados para conter o fluxo de visitantes e melhorar a lucratividade. O Castelo de Himeji, patrimônio mundial da UNESCO, introduziu um sistema a partir deste mês que oferece ingressos de mil ienes para residentes da cidade e 2.500 ienes para outros visitantes.

Quanto aos residentes estrangeiros, a população do Japão era de 4,13 milhões de pessoas no final de 2025, também um recorde. O projeto de lei prevê o aumento das taxas administrativas máximas para a renovação de autorizações de residência até 100 mil ienes (cerca de 555 euros) e para o pedido de residência permanente até 300 mil ienes: valores dez a 30 vezes superiores aos atualmente em vigor, que o governo afirma serem muito inferiores aos de outros países. Atualmente, a renovação de uma autorização de residência custa 6.000 ienes se feita pessoalmente (5.500 ienes online) e a solicitação de residência permanente custa 10.000 ienes. Os valores indicados na proposta de lei representam apenas limites máximos: o governo decidirá os montantes reais que pretende aumentar dentro destas margens a partir do ano fiscal de 2026. As autoridades argumentam que as receitas adicionais servirão para financiar a melhoria dos sistemas de imigração e custos relacionados. O texto também inclui disposições para reduzir ou isentar do pagamento os requerentes em dificuldades financeiras.

Paralelamente à reforma legislativa, o governo publicou em Janeiro um plano abrangente de cerca de cem páginas sobre políticas relacionadas com estrangeiros. O documento aborda inúmeras questões, desde o não pagamento de impostos e contribuições sociais ao ensino de línguas e ao problema da sobrelotação turística. O plano também indica a necessidade de requisitos mais rigorosos para a obtenção de residência permanente e cidadania. Entre as hipóteses em estudo estão a introdução de requisitos de conhecimento da língua japonesa para residência permanente e a ampliação do período mínimo de residência exigido para naturalização de cinco para dez anos. Outras medidas recentes ou em discussão dizem respeito a vários aspectos da presença estrangeira no país. O governo está a rever as regras sobre a compra de terrenos por cidadãos estrangeiros por razões de segurança nacional: um grupo de especialistas começou a trabalhar para definir uma orientação política nos próximos meses e preparar um quadro regulamentar.

Desde Outubro passado, as regras para a conversão de uma carta de condução estrangeira numa carta japonesa também foram reforçadas, um sistema criticado por ser demasiado permissivo. O teste escrito de regras de trânsito foi ampliado de dez para 50 questões com um limite de aprovação mais alto, causando um declínio acentuado nas taxas de aprovação tanto nos testes teóricos quanto nos testes práticos entre outubro e dezembro. Também desde outubro, foram reforçadas as exigências para o visto de “gerente de negócios”, destinado a estrangeiros que desejam abrir negócios no Japão. O requisito de capital mínimo foi aumentado seis vezes, para pelo menos 30 milhões de ienes, e foram introduzidos novos critérios relativos à experiência profissional e educação dos candidatos.

Finalmente, a nível local, a província de Ibaraki anunciou um projecto para oferecer recompensas a quem denunciar casos de trabalho ilegal envolvendo cidadãos estrangeiros. O plano prevê que qualquer pessoa que forneça informações que levem à prisão receba uma recompensa de 10 mil ienes, medida que já gerou polêmica. As políticas relativas aos estrangeiros tornaram-se um tema central no debate político japonês, também à luz do rápido aumento de trabalhadores estrangeiros e de turistas internacionais, considerados cada vez mais necessários para uma economia marcada pelo declínio demográfico. Ao mesmo tempo, os sectores a favor de regulamentações mais rigorosas – muitas vezes próximos da base conservadora do primeiro-ministro Takaichi – culpam os estrangeiros por problemas como a deterioração da ordem pública, o aumento da criminalidade e a sobrelotação dos destinos turísticos. A questão poderá assumir um peso ainda maior após a vitória clara do Partido Liberal Democrata – a principal força governamental – nas eleições gerais de Fevereiro passado.

Beatriz Marques
Beatriz Marques
Como redatora apaixonada na Rádio Miróbriga, me esforço todos os dias para contar histórias que ressoem com a nossa comunidade. Com mais de 10 anos de experiência no jornalismo, já cobri uma ampla gama de assuntos, desde questões locais até investigações aprofundadas. Meu compromisso é sempre buscar a verdade e apresentar relatos autênticos que inspirem e informem nossos ouvintes.