O chefe do Ministério dos Negócios Estrangeiros tem uma série de reuniões bilaterais na sua agenda, incluindo uma com o seu homólogo ucraniano Andrii Sybiha, enquanto uma reunião com o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, está marcada para amanhã.
Do nosso correspondente – O primeiro dia da Reunião dos Ministros dos Negócios Estrangeiros do G7 na Abadia de Vaux-de-Cernay, em Yvelines, terminou com uma dupla mensagem política: por um lado, o desejo francês de manter conjuntamente a gestão da crise e uma agenda geoeconómica, por outro, a tentativa de dar à presidência de Paris um perfil mais amplo do que o tradicionalmente reservado a uma reunião de Ministros dos Negócios Estrangeiros. O quadro dos trabalhos incluiu uma primeira sessão sobre a reforma da governação mundial, a chegada do Ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano Andrii Sybihauma série de reuniões bilaterais e uma sessão noturna dedicada à reconstrução. No entanto, ficaram em segundo plano os dossiês que já pareciam politicamente mais sensíveis nas vésperas do acontecimento: o Irão e o Médio Oriente, a segurança da navegação no Estreito de Ormuz, a Ucrânia, o arco de protecção de Chernobyl, as ameaças híbridas, os minerais críticos e a segurança económica. Os sete membros do G7 – França, Itália, Alemanha, Reino Unido, Estados Unidos, Canadá e Japão – juntamente com o Alto Representante da UE participam nos trabalhos Kaja Kallas. A França também optou por um formato ampliado, convidando Arábia Saudita, Brasil, Coreia do Sul, Índia e Ucrânia; Também está presente a presidente do Banco Europeu de Reconstrução e Desenvolvimento (BERD), Odile Renaud-Basso, chamada a contribuir em particular para o capítulo da reconstrução. Esta abordagem reflecte o objectivo francês de ligar a resposta às grandes crises a uma discussão mais estruturada sobre governação global, cadeias de abastecimento, segurança marítima e portuária, migração e resiliência económica.
No mérito, o primeiro dia mostrou como Paris tenta manter unidos dois planos que não coincidem inteiramente. A primeira é a da urgência geopolítica: a guerra no Médio Oriente e as suas repercussões na energia, no comércio e nas rotas marítimas; a segunda é a de médio prazo, ou seja, a reforma do multilateralismo e a correcção dos desequilíbrios económicos globais. O dossiê oficial francês insiste em três eixos – resolução de grandes crises, reforma da governação mundial e reconstrução, combate às ameaças transversais –, do lado italiano, colocou particular ênfase no Irão, Ormuz, Iraque, Gaza, Líbano e Ucrânia, incluindo o possível papel do G7 na reconstrução do arco de contenção da central de Chernobyl.
Na conferência de imprensa final do primeiro dia, o anfitrião Jean-Noel Barrot No entanto, teve também de responder a uma questão que ultrapassa o programa formal da ministerial mas que afecta directamente a credibilidade política da presidência francesa: o caso relativo à África do Sul. Após relatos de que Pretória foi excluída da cimeira dos líderes do G7 em Evian devido à pressão dos EUA, Barrot negou que Paris tivesse sucumbido à pressão externa. O ministro afirmou que a França “não cedeu a qualquer pressão” e defendeu “uma escolha consistente” com a ideia de um G7 “restrito” e centrado nas questões geoeconómicas, explicando que o convite ao Quénia está também ligado aos trabalhos preparatórios da cimeira “África Forward” agendada para maio. À margem do processo, alguns responsáveis franceses negaram a reconstrução segundo a qual Washington tinha imposto um não em Pretória, enquanto a presidência sul-africana afirmava o contrário.
Contudo, cabe um esclarecimento sobre este ponto. A linha francesa é politicamente defensiva e não resolve completamente a contradição: se o objectivo declarado da presidência é alargar a discussão às grandes economias emergentes, a ausência da África do Sul – parceiro habitual nestes formatos e presidente africano do G20 nesta fase – continua a ser um elemento que enfraquece a mensagem de Paris de agregação do chamado “Sul Global”. A explicação francesa mantém-se a nível formal, mas deixa em aberto a dúvida sobre o peso real das sensibilidades americanas na seleção dos convidados.
Do lado italiano, Antonio Tajani participou dos trabalhos com uma linha já traçada na véspera: forte atenção à crise iraniana, navegação até Ormuz e apoio a Kiev. A reunião entre Tajani e o ministro dos Negócios Estrangeiros ucraniano, Andrii Sybiha, também se enquadra neste contexto. De acordo com o que o próprio Sybiha relatou, Sybiha também relatou que discutiu com Tajani os esforços para uma paz duradoura, os desenvolvimentos no Médio Oriente, o papel dos especialistas ucranianos na região e as perspectivas da presidência ucraniana da Iniciativa Centro-Europeia. A reunião enquadra-se de forma coerente na sessão do G7 dedicada à Ucrânia prevista pela presidência francesa e no posicionamento italiano, que continua a associar o apoio a Kiev, a segurança energética e a pressão sobre a Rússia.
Em suma, o primeiro dia de trabalho na Abadia de Vaux-de-Cernay ainda não produziu avanços formais, mas clarificou o terreno político sobre o qual o G7 francês se moverá: a crise do Médio Oriente e a Ucrânia como prioridades imediatas, a governação global e a reconstrução como um quadro estratégico, com uma tensão constante entre a ambição multilateral e os limites políticos impostos pelo contexto internacional. E é precisamente o caso da África do Sul que se torna um sinal de quão difícil é para a França apresentar o G7 como uma plataforma aberta e inclusiva, ao mesmo tempo que tem de gerir os atritos com Washington e a urgência das crises em curso.
