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Fuga de jovens italianos para o exterior: Itália perde 150 mil habitantes – os dados

A fotografia retirada dos dados estatísticos mais recentes sobre a circulação da população italiana tem contornos nítidos, quase brutais. Em 2024, segundo os dados, outros 150 mil italianos registaram-se no AIRE, o registo de italianos residentes no estrangeiro. Para dar uma ordem de grandeza, é como se uma cidade do tamanho de Cagliari ou Perugia tivesse se esvaziado em doze meses, transportando malas e bagagens através da fronteira.

Este fluxo contínuo eleva para 6,38 milhões o total de italianos que optaram por viver fora do país. Isto representa mais de 10% da população que reside actualmente em Itália: um “povo” paralelo, uma nação dispersa que continua a crescer enquanto a mãe envelhece e se contrai.

É um fenómeno que já não pode ser classificado como “fuga de cérebros” ou simples “mobilidade europeia”. Estamos perante um êxodo estrutural que está a alterar profundamente o tecido demográfico e social do país. Os números agregados mostram um quadro agora consolidado:

A análise dos fluxos migratórios não é apenas uma questão de números absolutos, mas também de perspectivas. Se a emigração histórica se voltava para as Américas, a emigração contemporânea é decididamente europeia.

Para onde vão os italianos: dados de 2024

A Europa absorve a grande maioria dos novos expatriados: cerca de 74% dos 150.000 que deixaram Itália em 2024 encontraram um lar no Velho Continente. Os destinos continuam a ser os tradicionais, economias fortes que oferecem oportunidades de trabalho e salário que a Itália, evidentemente, já não consegue garantir. Alemanha E Reino Unido (apesar do Brexit) continuam a ser os destinos mais populares, seguidos de perto por suíço E França.

Interessante notar o forte crescimento Espanhaque se está a tornar um íman cada vez mais significativo, talvez devido a uma combinação de qualidade de vida e novas oportunidades económicas. Fora da Europa, o Estados Unidos continuam a ser o principal destino daqueles que tentam o salto intercontinental. Seguido pela Brasilmesmo que este número seja parcialmente “inflacionado” pelas aquisições de cidadania Jure Sanguinis pelos descendentes dos grandes fluxos migratórios dos séculos passados.

Mas não é apenas o destino que define o fenómeno. É a composição pessoal de quem sai. São sobretudo os jovens que abandonam a Itália, o segmento da população em idade fértil e produtiva. E isto leva-nos talvez aos dados mais surpreendentes e dramáticos contidos nos últimos relatórios.

Italianos no exterior: a surpresa dos dados de nascimento

Enquanto em Itália o debate público se centra num declínio aparentemente imparável do número de nascimentos, que já dura há quase uma década, no estrangeiro os italianos continuam a ter filhos. O Dados de 2024 falam claramente: durante o ano, 27 mil crianças italianas nasceram fora das fronteiras nacionais. Comparado com cerca de 8 mil mortes, o saldo natural (a diferença entre nascimentos e mortes) dos italianos no estrangeiro é positivo em 19 mil unidades.

Um número que contrasta fortemente com o “equilíbrio natural” italiano cronicamente negativo. É também importante sublinhar que são principalmente as pessoas que apoiam esta taxa de natalidade Emigrantes italianos primeira geração, e não tanto aqueles que obtiveram a cidadania por descendência.

A taxa média de natalidade dos italianos no exterior é de 4,4 por mil. A média esconde duas realidades diferentes: a europeia (5,5 por mil) e a muito inferior da América Latina (2,7 por mil).

Os países no exterior onde os italianos têm mais filhos (dados de 2024):

Onde a emigração é recente e jovem (Europa), são feitas crianças. Onde a emigração é histórica e já antiga (América Latina), a taxa de natalidade é, compreensivelmente, muito baixa.

Uma análise além dos números: o verdadeiro impacto nos dados de 2024

Nunca antes foi necessária uma dose enorme de realismo quando confrontados com estes números. Não estamos a assistir a um “baby boom” de italianos no estrangeiro. A razão pela qual o equilíbrio natural é tão positivo não é uma fertilidade excepcional, mas uma banalidade demográfica: são os jovens que emigram.

Dados em mãos, em 2024 a idade média dos italianos que vivem no exterior é 39 anosenquanto o dos residentes em Itália é 55 anos.

No exterior não há muitos recém-nascidos em termos absolutos; há muito poucas mortes, porque a população é jovem. Na Itália, pelo contrário, a população é idosa e as mortes excedem largamente os nascimentos. Estamos, de facto, a exportar o nosso grupo demográfico mais vital.

Mais pessoas nascem no exterior

E aqui chegamos ao ponto crucial, aquele que liga indissociavelmente a emigração à taxa de natalidade. Aqueles 27 mil crianças italianas nascidas no exterior em 2024 são um número superior aos dados sobre o declínio dos nascimentos registados em Itália no mesmo ano. Comparativamente a 2023, nasceram cerca de 10 mil crianças a menos no nosso país.

O cálculo é simples e implacável: se os pais dessas 27 mil crianças não tivessem sido forçados a emigrar em busca de estabilidade e perspectivas económicas, e tivessem tido os seus filhos em Itália, o declínio da natalidade nacional não só teria parado, como provavelmente teríamos assistido a uma inversão da tendência.

Isto muda radicalmente o debate. A crise demográfica italiana não é apenas uma questão de incentivos à natalidade ou de construção de creches (medidas ainda necessárias). É, antes de mais, uma crise económica e de oportunidades que obriga a geração mais fértil a construir o seu futuro, e o das suas famílias, noutro lugar.

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Beatriz Marques
Beatriz Marques
Como redatora apaixonada na Rádio Miróbriga, me esforço todos os dias para contar histórias que ressoem com a nossa comunidade. Com mais de 10 anos de experiência no jornalismo, já cobri uma ampla gama de assuntos, desde questões locais até investigações aprofundadas. Meu compromisso é sempre buscar a verdade e apresentar relatos autênticos que inspirem e informem nossos ouvintes.