Copenhaga propôs reforçar a cooperação militar, oferecendo mais bases dos EUA no território, mas o interesse de Washington até agora tem-se mostrado fraco
O presidente dos EUA Donald Trump está a considerar uma série de opções para obter um controlo maior ou total sobre a Gronelândia, um território autónomo do Reino da Dinamarca. Isto foi noticiado pelo jornal “Financial Times”, citando actuais e antigos responsáveis dinamarqueses e norte-americanos, segundo os quais entre as possibilidades discutidas em Washington estão o aumento da presença militar americana na ilha, a criação de um acordo de associação no modelo do Pacto de Associação Livre (Cofa) já existente com três estados do Pacífico, até à anexação forçada.
Copenhaga propôs reforçar a cooperação militar ao abrigo do acordo bilateral de defesa de 1951, oferecendo mais bases dos EUA no território, mas o interesse de Washington tem-se revelado até agora tímido. Uma das hipóteses em análise é a de transformar estas bases em territórios sob jurisdição dos EUA, como acontece com as instalações britânicas em Chipre. No caso da eventual independência da Gronelândia – apoiada pela maioria dos cidadãos, mas com 85% de oposição à integração com os Estados Unidos – os funcionários da administração Trump vêem uma oportunidade para redefinir a relação. Um acordo Cofa garantiria o acesso militar exclusivo aos EUA e a possibilidade de excluir outros actores como a China e a Rússia, em troca de subsídios económicos. A Dinamarca fornece atualmente a Nuuk cerca de US$ 700 milhões por ano.
Alguns políticos groenlandeses manifestaram abertura a um acordo com Washington, embora permanecendo cautelosos. Contudo, crescem os receios em Copenhaga de que a administração dos EUA esteja a levar a cabo uma campanha de influência para pressionar pela independência. Segundo o “Financial Times”, o governo dinamarquês não descarta que Trump possa usar a força militar para obter o controlo da ilha. Um movimento semelhante, de acordo com o primeiro-ministro dinamarquês Mette Frederiksen, acabaria de facto com a NATO e a arquitectura de segurança do pós-guerra na Europa. Trump já recebeu respostas públicas sobre o facto de a Gronelândia “não estar à venda”, mas permanecem preocupações de que, como antigo empresário imobiliário, o interesse do presidente também seja ditado por motivações territoriais.
O plano da UE
Os ministros dos Negócios Estrangeiros da União Europeia e os diplomatas europeus estão a elaborar uma resposta coordenada às crescentes declarações do presidente dos EUA, Donald Trump, sobre a possibilidade de adquirir a Gronelândia. A questão, como noticiou a edição europeia do portal “Politico”, surgiu com força no quadro das consultas sobre política externa e de segurança da UE, depois de Washington ter confirmado que Trump preferiria negociar a aquisição da ilha, mas não descarta “assumir o controlo” em casos extremos. A situação gerou alarmes internos: “Devemos estar prontos para um confronto direto com Trump”, disse um diplomata da UE envolvido nos trabalhos preparatórios. Uma opção preferida pelas autoridades europeias é um acordo negociado que permita a Trump apresentar uma “vitória” política sem comprometer a soberania dinamarquesa ou gronelandesa. Segundo os especialistas, a NATO poderia assumir um papel mediador, como já fez entre a Turquia e a Grécia no passado, para facilitar um acordo entre a Gronelândia, a Dinamarca e os Estados Unidos. Um diplomata da UE observou que um pacote de segurança reforçado na Gronelândia que abordasse as preocupações dos EUA sobre alegadas ameaças russas e chinesas poderia ser útil. O acordo poderia incluir uma melhoria da segurança no Árctico: acelerar os gastos com defesa na região, aumentar os exercícios militares aliados e considerar a presença estável de tropas europeias ou da NATO na Gronelândia, inclusive como um mecanismo de dissuasão. Três fontes da NATO citadas pelo “Politico” sugerem uma iniciativa semelhante à actual “Sentinela Oriental” e “Sentinela Báltica” para o Árctico. O objectivo seria mostrar o compromisso europeu no norte, fortalecendo assim a aliança e respondendo às exigências dos EUA.
A UE está a estudar propostas para aumentar significativamente os fundos atribuídos à Gronelândia: de acordo com um projeto da Comissão Europeia, os fundos da UE poderão aumentar para 530 milhões de euros no período 2028-2034, para além dos cerca de 44 milhões disponíveis para territórios remotos associados à UE. Estes recursos adicionais poderiam apoiar o desenvolvimento infra-estrutural, social e económico, incluindo o fortalecimento da indústria extractiva local. Uma oferta económica atractiva poderia reforçar a autonomia da ilha e desencorajar a aquisição pelos EUA. Outra alavanca política à disposição da UE é o Instrumento Anticoerção, introduzido após a imposição de direitos dos EUA sobre as exportações europeias. No caso de ações unilaterais de Washington na Gronelândia, a UE poderia reativar este instrumento para responder à discriminação comercial, num contexto em que a União exporta mais de 600 mil milhões de euros por ano para os Estados Unidos. O presidente da comissão de comércio do Parlamento Europeu, Bernd Lange, sublinhou que o comércio com os Estados Unidos é uma potencial “ferramenta de dissuasão”.
Fontes militares e diplomáticas observam que, no caso extremo em que os Estados Unidos tentassem uma acção militar unilateral, a Europa teria poucas hipóteses de a impedir militarmente desde o início. Contudo, o direito internacional e os compromissos de defesa colectiva da OTAN forçariam a Dinamarca a reagir; uma “ordem permanente” de 1952 estipula que as tropas dinamarquesas “reajam imediatamente” em caso de ataque ao território. Neste cenário, países como a França e a Alemanha poderiam considerar o envio de contingentes simbólicos para a Gronelândia, a pedido de Copenhaga, não para confrontar directamente as forças dos EUA, mas para aumentar o custo político e diplomático de uma intervenção. A preocupação europeia surge do facto de Trump ter ligado a questão da Gronelândia à segurança do Árctico e aos receios da influência russa e chinesa na região, estimulando Bruxelas e as capitais europeias a reconsiderarem a importância estratégica do Árctico. O ministro francês Jean Noel Barrot reiterou que “a Groenlândia não está à venda e não pode ser objeto de anexação”, destacando o princípio de que a soberania territorial é inegociável. As opções disponíveis vão desde a diplomacia activa e pacotes económicos até ferramentas de pressão comercial e iniciativas de reforço da segurança. A questão da complementaridade entre as estratégias europeias e os compromissos da NATO permanece em aberto, com o objectivo de evitar que a retórica dos EUA evolua para uma verdadeira crise de soberania territorial.