O presidente dos EUA disse, numa referência à polémica sobre o ataque surpresa ao Irão, que ninguém “sabe mais sobre ataques surpresa do que o Japão”.
Quase uma semana se passou desde a cimeira de Washington entre o presidente dos EUA Donald Trump e o primeiro-ministro japonês Sanae Takaichi, durante o qual o ocupante da Casa Branca brincou diante do primeiro-ministro sobre o ataque a Pearl Harbor, afirmando – numa referência à polémica sobre o ataque surpresa ao Irão – que ninguém “sabe mais sobre ataques surpresa do que o Japão”. A piada dominou o debate político, com muitos observadores a concentrarem-se nas reações do primeiro-ministro japonês, interpretadas como surpresa reprimida ou desilusão diplomática pelo uso irónico de um acontecimento que causou cerca de 2.400 vítimas norte-americanas. De acordo com outra leitura, proposta pelo jornal britânico “Financial Times”, Takaichi pode ter visto uma oportunidade política na saída de Trump. O primeiro-ministro há muito que afirma que o mundo entrou numa fase de instabilidade permanente e que a actual estrutura do país asiático, vinculado ao seu pacifismo constitucional, já não é adequada. Episódios como a piada de Trump contribuem para questionar as certezas do passado e fortalecer a ideia da necessidade de mudança.
Na frente interna, Takaichi deve enfrentar diversas dificuldades com obstáculos e rigidez institucional: o iene permanece fraco enquanto o conflito no Médio Oriente realça a dependência do Japão das importações de energia; a supermaioria parlamentar obtida em Fevereiro assentou na promessa de redução do custo de vida, objectivo hoje mais complexo do que nunca; além disso, as relações com a China, o principal parceiro comercial de Tóquio, permanecem tensas. O primeiro-ministro interpreta o mandato eleitoral como um apoio a um reforço mais amplo da capacidade nacional. O seu programa – recorda o jornal britânico – está dividido em três linhas principais. A primeira diz respeito à segurança: segundo o primeiro-ministro, o Japão deve enfrentar a situação de instabilidade e insegurança global aumentando os gastos militares, revisando a constituição pacifista e fortalecendo a segurança económica, reduzindo a dependência do guarda-chuva dos EUA.
A segunda direção prevê uma mudança no funcionamento do Estado, com maior coordenação entre inteligência, cibersegurança, política externa e defesa, bem como uma colaboração mais estreita entre os ministérios relevantes. A terceira envolve uma revisão do modelo económico japonês. Takaichi identificou 17 setores estratégicos para investimento público-privado, incluindo biotecnologia, tecnologia alimentar, construção naval e inteligência artificial, sem incluir a indústria automóvel, um pilar tradicional da economia japonesa. A ausência é vista como um sinal da necessidade de repensar as prioridades industriais.
A referência jocosa de Trump a Pearl Harbor, feita em resposta à pergunta de um repórter sobre o seu fracasso em alertar o Japão sobre o ataque ao Irão, sugere implicitamente que Washington nem sempre partilha informações sensíveis com o seu principal aliado asiático. O episódio pode indicar tanto a solidez da aliança quanto uma mudança nas relações construídas ao longo dos últimos oitenta anos. Para Takaichi, esta incerteza representa um risco, mas também uma oportunidade para convencer a opinião pública de que o contexto internacional mudou profundamente e que o Japão deve adaptar-se em conformidade.