O número total de mortos é de 44 mortos, com centenas de feridos
A Espanha vive uma segunda tragédia ferroviária em menos de 48 horas, com descrença e dor. Ontem à noite, um trem regional da linha R4 entre Sant Sadurní d’Anoia e Gelida, perto de Barcelona, descarrilou depois que um muro de contenção desabou sobre os trilhos. O maquinista perdeu a vida e pelo menos 37 passageiros ficaram feridos, quatro dos quais estão em estado crítico. O acidente ocorreu durante uma forte onda de mau tempo que levou à declaração de alerta vermelho devido ao risco de inundações na região. As chuvas intensas e a consequente desestabilização do terreno são consideradas as causas mais prováveis da ruína da estrutura, mas a dinâmica completa ainda permanece sob análise pelas autoridades competentes e pelos órgãos responsáveis pela verificação da segurança da rede ferroviária. Por precaução, o serviço ferroviário suburbano Rodalies foi suspenso em toda a Catalunha, enquanto se aguardam novas verificações na rede. O número de mortos provocados pelo acidente de Gelida soma-se aos 43 ocorridos na colisão de dois comboios ocorrida ao final da tarde de domingo em Adamuz, perto de Córdoba. A emoção é palpável em todo o país, onde há um crescente sentimento de perplexidade e a procura de explicações sobre como foi possível que dois acidentes tão graves tenham ocorrido num espaço de tempo tão curto.
A nível sindical, os maquinistas anunciaram a convocação de uma greve geral. A decisão foi motivada pelo pedido de maiores garantias sobre a segurança da rede ferroviária e a protecção de quem trabalha diariamente nos comboios. A greve pretende chamar a atenção das instituições para a necessidade de intervenções urgentes e concretas para evitar que episódios semelhantes voltem a acontecer. A reação do mundo político foi imediata. O Presidente do Governo, Pedro Sanches, manifestou profundas condolências pelas vítimas e a sua proximidade às famílias afectadas, garantindo que o executivo actuará com a máxima transparência para esclarecer as causas dos acidentes e apurar quaisquer responsabilidades. A este respeito, o governo reiterou o seu compromisso de colaborar com as autoridades regionais e organismos técnicos, sublinhando a necessidade de uma acção coordenada num momento de emergência nacional.
No Parlamento, porém, a unidade inicial entre a maioria e a oposição começou a ruir. O Partido Popular (PP), principal força da oposição, depois de uma atitude inicial cautelosa, intensificou as críticas, acusando o governo de não ter conseguido prevenir os problemas infra-estruturais que agora emergem com força. Alguns representantes pediram esclarecimentos detalhados sobre a gestão e manutenção da rede ferroviária, argumentando que as tragédias dos últimos dias são o resultado de deficiências estruturais conhecidas há algum tempo. O Vox também atacou duramente o executivo, alimentando um acalorado embate político num contexto já marcado pelo luto. Por seu lado, o governo rejeitou as acusações consideradas “instrumentais”, convidando todas as forças políticas a manter uma atitude responsável e a não transformar uma tragédia nacional num campo de batalha. Vários ministros sublinharam, de facto, que a prioridade continua a ser o esclarecimento dos factos e a garantia da segurança dos cidadãos. O que torna ainda mais difícil de aceitar o que aconteceu é o facto de estas duas tragédias chegarem a um país onde os caminhos-de-ferro têm sido historicamente considerados um “carro-chefe” do transporte público nacional, um símbolo de eficiência, segurança e modernização. Precisamente por esta razão, os acidentes na Andaluzia e na Catalunha parecem ainda mais surpreendentes e chocantes aos olhos da opinião pública, abrindo um fosso profundo entre a imagem consolidada do sistema ferroviário espanhol e uma realidade que, em poucos dias, mostrou toda a sua vulnerabilidade.