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El Pais: Juan Carlos passa no teste de desclassificação de documentos sobre o golpe de Estado de 1981 na Espanha

Entre os materiais mais relevantes está um manuscrito do final de 1980, encontrado na casa do tenente-coronel José Crespo Cuspinera, envolvido em posteriores planos golpistas.

A desclassificação completa dos documentos sobre o golpe de estado de 23 de Fevereiro de 1981 em Espanha não revelou alterações substanciais face à historiografia oficial sobre o papel desempenhado pelo rei João Carlosao mesmo tempo que adiciona peças novas e interessantes. O jornal “El Pais” noticiou isto com base nos 153 documentos tornados públicos ontem pelo governo de Pedro Sánchez. Entre os materiais mais relevantes está um manuscrito do final de 1980, encontrado na casa do tenente-coronel José Crespo Cuspineraenvolvido em conspirações golpistas subsequentes. O texto oferece uma visão direta da mentalidade dos conspiradores. Nessas páginas consta que um dos principais erros cometidos foi “deixar o Bourbon livre e tratá-lo como se fosse um cavalheiro”. Os autores defenderam a necessidade de “corrigir” esse erro em quaisquer ações futuras e chegaram a definir o rei como um “alvo a ser derrubado e anulado”, acusando-o de querer realizar uma “tentativa suicida” de formar um governo com os socialistas. O documento reflecte uma fractura profunda: por um lado o soberano era considerado influente no equilíbrio político, por outro já não merecia ser respeitado como símbolo. A par destes documentos emergem cronologias detalhadas das horas decisivas vividas no Palácio da Zarzuela, sede oficial da família real.

Um dossiê reconstrói minuto a minuto os movimentos do chefe de Estado a partir das 18h22, quando chegou a notícia da invasão armada ao Congresso dos Deputados liderada pelo tenente-coronel Antonio Tejero, falecido ontem aos 93 anos. Segundo os documentos, o rei parecia determinado desde o início a defender a ordem constitucional. Às 19h30 foi decidido dirigir-se à nação pela televisão para esclarecer a sua posição; após verificar que a emissora pública estava sob controle militar e obter seu despejo, a mensagem foi gravada à meia-noite e transmitida às 13h12. As conversas com os líderes militares são fundamentais. O General Alfonso Armada, posteriormente considerado pelo Supremo Tribunal como o principal beneficiário do complô, tentou diversas vezes intervir na gestão da crise. O General José Juste perguntou explicitamente se a Armada estava ao lado do soberano; a resposta negativa do secretário-geral da Casa do Rei, Sabino Fernández Campo, marcou uma viragem. O capitão-geral de Valência, Jaime Milans del Bosch, que tinha mandado os tanques para a rua, também perguntou sobre a posição do monarca. Após a mensagem televisiva, reconheceu a impossibilidade de continuar: “Depois desta mensagem já não posso voltar atrás”, admitiu.

Os documentos revelam ainda que, nas horas anteriores à rendição, o rei enviou uma mensagem aos capitães-generais confirmando ter ordenado às autoridades civis e ao Estado-Maior Conjunto que tomassem as medidas necessárias à manutenção da ordem constitucional. Numa conversa nocturna com o Milan da Bosch, reiterou a sua “decisão clara” de defender o Estado de direito, afirmando que nenhum golpe de Estado poderia ser justificado em seu nome e declarando que não tinha intenção de abdicar ou deixar o país. Contudo, os documentos também mostram um clima de forte tensão dentro das Forças Armadas nos meses seguintes. Um relatório intitulado “Índices de subversão nas Forças Armadas”, datado de dezembro de 1981, relata uma deterioração da imagem do rei em alguns meios militares e o surgimento de novos impulsos golpistas, com hipóteses de novas intervenções em junho do mesmo ano. O Ministério da Defesa reconheceu o risco de um distanciamento progressivo entre os chefes militares e o espírito constitucional, propondo medidas para fortalecer a profissionalização e a lealdade democrática do exército. O escritor Javier Cercas, autor de “Anatomia de um Instante”, comentou que “o grande segredo do golpe de Estado é que não há segredo”: o rei cometeu erros políticos, mesmo graves, como a ideia de favorecer um governo de concentração presidido por um militar, mas não organizou o golpe; pelo contrário, ele parou. Uma avaliação que é confirmada pelos documentos agora públicos, que, embora realcem ambiguidades e tensões, não oferecem provas de um envolvimento direto do soberano no planeamento da insurreição.

Beatriz Marques
Beatriz Marques
Como redatora apaixonada na Rádio Miróbriga, me esforço todos os dias para contar histórias que ressoem com a nossa comunidade. Com mais de 10 anos de experiência no jornalismo, já cobri uma ampla gama de assuntos, desde questões locais até investigações aprofundadas. Meu compromisso é sempre buscar a verdade e apresentar relatos autênticos que inspirem e informem nossos ouvintes.