Prepare-se para uma viagem no tempo – sem máquina, nem DeLorean! Uma surpreendente descoberta feita numa caverna da Indonésia acaba de dar um nó nos caminhos da nossa árvore genealógica, revelando uma linhagem humana que ninguém esperava. Sinais da pré-história, ADN resistente e muita ciência: o passado não cansa de nos pregar peças!
Um esqueleto, uma caverna e um mistério: o início da aventura
Em 2015, arqueólogos encontraram restos mortais humanos na caverna Leang Panninge, localizada na ilha indonésia de Sulawesi (também conhecida como Célebes). Rapidamente perceberam que não era uma descoberta qualquer: os ossos pertenciam a uma jovem, de 17 ou 18 anos, que havia sido enterrada em posição fetal, parcialmente coberta por pedras e ladeada de ferramentas e ossos de animais. Não era um enterro qualquer – era o rastro de uma cultura perdida.
Batizada carinhosamente pelos cientistas como Bessé, a jovem fazia parte da enigmática cultura Toalean, composta por caçadores-coletores que habitaram o sudoeste da península de Sulawesi entre 8.000 e 1.500 anos atrás. Até então, nunca um esqueleto tão completo fora atribuído a essa cultura – já podemos imaginar a animação no laboratório!
ADN antigo, desafios tropicais e revelações surpreendentes
O mistério estava lançado, mas ainda faltava encaixar peça fundamental do quebra-cabeça: a história genética de Bessé. Para isso, foi necessária uma operação delicada (e corajosa) dada a degradação causada pelo clima tropical da região. Selina Carlhoff, do Max Planck Institute for the Science of Human History, contou que extrair ADN intacto nesses casos é quase missão impossível. Mas, com jeitinho, conseguiram retirar material genético do osso do ouvido interno da jovem – uma façanha digna de filme de suspense científico.
- Trata-se do primeiro ADN humano antigo já extraído em Wallacea, região composta pelas ilhas entre Bornéu e Nova Guiné.
- É também o primeiro indício genético direto da cultura Toalean.
Com a idade da jovem cuidadosamente estimada entre 7.200 e 7.300 anos, o ADN revelou algumas surpresas de cair o queixo. O genoma de Bessé mostrou-se parcialmente semelhante ao de aborígenes australianos e dos atuais habitantes da Nova Guiné e do Pacífico ocidental. E não ficou por aí: havia também traços do ADN dos Denisovanos, parentes distantes dos (já famosos) neandertais.
O que dizem as origens de Bessé?
Esses resultados reforçam a hipótese de que os Toaleans estavam relacionados aos primeiros humanos que chegaram à Wallacea há cerca de 65.000 anos. O professor Adam Brumm, da Griffith University, explicou que esses pioneiros foram os primeiros moradores do antigo supercontinente Sahul, que durante o Pleistoceno reunia Austrália, Tasmânia e Nova Guiné por pontes de terra firma (uma espécie de condomínio fechado da pré-história, só que maior).
Parece claro que essas populações, atravessando mares e ilhas da Wallacea, realizaram viagens incríveis. Mas ainda sabemos pouquíssimo sobre essa aventura épica. Segundo o próprio Brumm, detalhes dessas migrações são como mistérios guardados a sete chaves.
O pulo do gato está aqui: enquanto os cientistas só conheciam migrações modernas da Ásia para Wallacea de cerca de 3.500 anos atrás, o ADN de Bessé mostrou uma assinatura ancestral asiática muito mais antiga. E mais: não se encontrou traços desta linhagem nos habitantes atuais de Sulawesi, que descendem principalmente de agricultores neolíticos que chegaram há três mil anos. Isso indica que a linhagem de Bessé provavelmente desapareceu há cerca de 1.500 anos, sem deixar descendentes locais conhecidos.
- Os ancestrais de Bessé aparentemente não se misturaram nem com aborígenes australianos, nem com papuas.
- Chegaram à região após o povoamento original do Sahul, mas antes da expansão austronésia.
- Permaneceram isolados por milénios, com pouquíssimos contatos com outros povos antigos da região.
E agora? Novas perguntas, novas buscas
Como toda boa descoberta científica que se preze, restam agora ainda mais dúvidas e inquietações sobre os Toaleans e suas origens misteriosas. Os pesquisadores esperam, quem sabe, por novas análises genéticas entre a atual população da ilha para encontrar algum vestígio perdido desse passado. E já planejam escavações futuras – ninguém ficou parado com a curiosidade atiçada!
O professor Brumm destaca: a descoberta de Bessé e as consequências de sua ascendência genética expõem como nosso conhecimento sobre a história humana primitiva da região ainda é limitado – e quantas surpresas o tempo ainda guarda debaixo da terra. Que venham as próximas escavações, porque com a pré-história a conversa promete ser longa e cheia de revelações!