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Bolsonaro e outros cinco réus começam a cumprir penas por tentativa de golpe no Brasil

O ex-presidente poderia se beneficiar de mecanismos úteis para reduzir o tempo de sua permanência na prisão

Ex-presidente do Brasil JairBolsonaro e cinco outros altos funcionários de seu governo começaram a cumprir penas pela tentativa de golpe no final de 2022. O Supremo Tribunal Federal do Brasil (Supremo Tribunal Federal, Stf) definiu de fato como “res judicata” as sentenças proferidas em 11 de setembro contra o primeiro grupo (“núcleo principal”) de réus responsabilizados por terem conspirado para impedir o Luiz Inácio Lula da Silva tomou posse como presidente, apesar da vitória nas eleições gerais de outubro de 2022. Além de Bolsonaro, condenado a 27 anos e três meses de prisão, o ex-comandante da Marinha começa a cumprir pena Almir Garnier Santos (20 anos), ex-ministros da defesa Augusto Heleno (16 anos) e Paulo Sérgio Nogueira (17 anos), ex-Ministro da Habitação Civil Walter Souza Braga Netto (15 anos) e o antigo Ministro da Justiça Anderson Torres (14 anos). A decisão, confirmada por unanimidade pela primeira turma do Tribunal, foi tomada pelo magistrado Alexandre de Moraesconsiderando que se esgotaram as margens para apresentação de outros recursos: tendo expirado no dia 24 de Novembro o prazo para o chamado “embargo de declaração”, destinado a requerer a correcção de erros formais da sentença, mantém-se, em tese, a possibilidade de apresentação do denominado “embargo infringente”, recurso que em tese teria mais possibilidade de alteração do conteúdo da sentença. Mas o STF certificou a prática segundo a qual esse instrumento pode ser adotado caso a condenação tenha sido proferida com pelo menos dois magistrados contra, e não um, como aconteceu em setembro.

A espera agora é entender quanto tempo Bolsonaro e os demais realmente terão que passar na prisão antes de poderem ter acesso aos benefícios da lei. O primeiro e mais importante passo é para o regime de semiliberdade, com retorno à prisão à noite: o condenado deve, antes de mais nada, demonstrar bom comportamento e ter cumprido parte da pena na prisão, conforme esquema percentual estabelecido em lei promulgada pelo próprio Bolsonaro quando era presidente. Partimos de uma base mínima de 16 por cento do total, que aumenta para 25 por cento caso o crime tenha sido cometido com “violência ou ameaça grave”. Bolsonaro foi condenado por cinco crimes, incluindo dois, “abolição violenta do Estado democrático” e “tentativa de golpe de Estado”, que envolvem especificamente “violência ou ameaça grave”. O ex-presidente poderia, portanto, ser libertado da prisão não antes de seis anos e dez meses. A decisão final, que combina elementos subjetivos como a boa conduta e elementos objetivos como a avaliação da pena, terá de ser tomada pela justiça a pedido dos advogados de Bolsonaro.

O ex-presidente também poderia beneficiar de mecanismos úteis para reduzir o tempo de permanência na prisão: o sistema prevê um dia a menos por cada três dias de trabalho realizado e um por cada doze horas de estudos frequentados em pelo menos três dias. Depois, há a hipótese de que o tempo passado em prisão preventiva seja descontado da pena global. Neste caso, alertam os meios de comunicação, a batalha jurídica poderia inflamar-se: Bolsonaro estava em prisão domiciliária desde agosto por não ter respeitado alguns requisitos impostos enquanto aguardava a pronúncia da sentença (incluindo a proibição de publicar os seus discursos online). O líder conservador foi efetivamente colocado em prisão preventiva no sábado, 22, mas pela tentativa de evasão à prisão domiciliar ao tentar adulterar a tornozeleira eletrônica e não em aplicação da pena pelo golpe de Estado. Alguns analistas também levantam a hipótese de que os advogados poderão se reservar o direito de retornar ao momento e às condições de prisão após as próximas eleições presidenciais, no final de 2026: o vencedor será chamado a renovar parte da composição do STF e não está excluído que um novo governo possa pressionar por personalidades dispostas a fazer avaliações diferentes sobre todo o caso do “golpe”.

Bolsonaro começa a cumprir pena na Superintendência da Polícia Federal de Brasília, equivalente à nossa sede central de polícia, onde entrou no sábado sob a acusação de tentar fugir da prisão domiciliar. O ex-presidente é forçado a entrar numa sala especialmente reservada para altas figuras públicas. O quarto, reportado pelo título “G1”, dispõe de um quarto com mesa, cadeira, cama de solteiro e banheiro privativo. Bolsonaro tem ar condicionado, televisão, janela, guarda-roupa e frigobar. Condições semelhantes às de Luiz Inácio Lula da Silva e do ex-presidente Michael Temerno – respectivamente – Estado-Maior da Polícia Federal em Curitiba e São Paulo. As autoridades, noticia “O Globo”, providenciaram para a ocasião uma vigilância especial da sala ocupada pelo ex-presidente, através da utilização de equipamentos externos anti-drones, do controlo das refeições e de equipas preparadas para reagir a qualquer movimento anómalo dos adeptos.

Controles mais rigorosos são aplicados para quem pretende acessar as instalações: a entrada na Superintendência é permitida apenas a funcionários e visitantes previamente autorizados, traçando os motivos da visita e o destino final. O objetivo é evitar a aproximação de curiosos ou outras pessoas não envolvidas diretamente no caso. Um protocolo rigoroso que também é aplicado a advogados e familiares (no momento estavam de visita sua esposa Michelle e os filhos Flávio e Carlos). As janelas do corredor por onde Bolsonaro tem que passar para se apresentar para a entrevista com os advogados foram escurecidas propositalmente para impedir gravações de áudio e vídeo. Paralelamente, um gabinete especial é responsável por monitorizar a actividade nas redes sociais dos apoiantes do ex-presidente, interceptando quaisquer movimentos em direcção à sede da polícia. Por fim, as forças de segurança estão treinadas e prontas para reagir, 24 horas por dia, a quaisquer tumultos, acidentes ou tentativas de invasão do perímetro.

Conhecida a sentença do STF, os ex-soldados também terão que enfrentar outro julgamento: o capitão Bolsonaro, o almirante Garnier Santos e os generais Nogueira, Heleno e Braga poderão de fato perder a farda e a patente. Medida que só pode ser ordenada pelo tribunal militar (Tribunal Superior Militar, STM) se o condenado tiver cumprido pena de pelo menos dois anos. O processo deverá ser aberto com denúncia do Ministério Público Militar (MPM), hipótese que pode ocorrer até o final do ano. Caberá, portanto, à presidente do STM, Maria Elizabeth Rocha, a tarefa de distribuir o caso aos magistrados competentes, para uma sentença que – escreve “O Globo” – poderá ocorrer ainda no primeiro semestre de 2026. A expulsão do órgão não é uma circunstância inédita, mas costuma acompanhar casos de corrupção ou infrações disciplinares graves e é inédita, no Brasil, por motivos políticos.

Um caso particular é o de Alexandre Ramagemdeputado do Partido Liberal (PL), cujo título de deputado foi ontem cassado. No início do mês foi descoberto que o homem estava há meses nos Estados Unidos: no dia 9 de setembro, dia em que Moraes pronunciou o primeiro “sim” à condenação, Ramagem foi para Boa Vista, no norte do estado de Roraima, e depois entrou – no dia seguinte – na Guiana. No dia 11, dia em que o STF formalizou as sentenças, o deputado embarcou em voo para Miami, na Flórida, com a esposa e as filhas, utilizando o passaporte diplomático. A transferência para os Estados Unidos surgiu como mencionado há apenas três semanas, quando a Polícia Federal começou a localizar os condenados do “primeiro núcleo”. Na decisão adotada ontem, Moraes determinou que os dirigentes da Câmara cassem os direitos políticos de Ramagem – que também perde o salário – já que o regime carcerário o impediria de permanecer no Parlamento. A decisão final cabe ao presidente da Câmara, Hugo Motta, que poderá decidir submeter o caso à apreciação da Câmara. A história de Ramagem é, neste sentido, comparada à de Carla Zambelli, condenada a dez anos por tentativa de ataque ao sistema informático da justiça e levada para Itália: até à data, ainda não perdeu formalmente o título de deputada.

Beatriz Marques
Beatriz Marques
Como redatora apaixonada na Rádio Miróbriga, me esforço todos os dias para contar histórias que ressoem com a nossa comunidade. Com mais de 10 anos de experiência no jornalismo, já cobri uma ampla gama de assuntos, desde questões locais até investigações aprofundadas. Meu compromisso é sempre buscar a verdade e apresentar relatos autênticos que inspirem e informem nossos ouvintes.