O primeiro governo formado pelo novo presidente é composto por quatorze ministros – onze homens e três mulheres. Um executivo um pouco mais enxuto que o de 18 ministros de seu antecessor, Luis Arce
É o primeiro governo formado por quatorze ministros – onze homens e três mulheres Rodrigo Paz Pereira como o novo presidente da Bolívia. Um executivo ligeiramente mais enxuto do que o de 18 ministros do seu antecessor, Luis Arceinstalado no mesmo dia do juramento, e não em ato separado, em nome da promessa de eficiência feita por Paz durante a campanha eleitoral. Os novos ministros terão a tarefa de traduzir em ações práticas a missão amplamente antecipada pelo presidente: abandonar a temporada “ideológica” dos governos “neo-socialistas”, tanto reorientando a economia para o mercado como redesenhando o esquema de alianças internacionais em favor do Ocidente. Esta última tarefa recairá principalmente sobre o Ministro dos Negócios Estrangeiros, o economista de 51 anos Fernando Hugo Aramayo Carrasco. Ex-coordenador do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), Aramayo foi responsável pela Assembleia Constituinte na Bolívia (2006) e se apresenta como especialista em políticas públicas. O novo ministro, cuja aposta na “diplomacia digital” reflecte o seu compromisso com uma visão inovadora do país, terá antes de tudo a tarefa de reabrir as relações diplomáticas com os Estados Unidos, interrompidas em 2009 pelo então presidente Evo Morales.
Vai para o Ministério da Economia e Finanças Públicas José Gabriel Espinoza Yanez. Economista, de 46 anos, Espinoza foi diretor do Banco Central durante o governo “interino” de Jeanine Anez (2019-2021) e é apresentado como um crítico severo das políticas estatistas levadas a cabo pelos governos do Movimento ao Socialismo (Mas), primeiro o partido de Evo Morales e depois de Arce. Já gestor económico da Cepb (confederação de empresários) e da Cnc (Câmara de Comércio), o novo ministro é um convicto defensor da livre concorrência e terá de gerir os dossiês considerados os mais quentes dos próximos meses: a Bolívia fechou o primeiro semestre com uma queda do produto interno bruto de 2,4% no ano, e chegou em setembro com uma inflação acumulada de 18,3%, uma das mais altas de todo o continente. A expectativa é que seja realizada uma revisão da taxa de câmbio controlada com o dólar norte-americano, considerada a base das dificuldades no fortalecimento das reservas internacionais, bem como dos problemas na compra de combustíveis do outro lado da fronteira.
Crucial neste sentido será a acção do novo Ministro dos Hidrocarbonetos Maurício Medinacelli Monroy. O país andino sofre com a falta de investimento no setor, dado o envelhecimento natural das jazidas, que se acredita ser a razão do declínio da produção de petróleo e, sobretudo, de gás, estrutura que passou a importar depois de anos como protagonista nos mercados internacionais. Medinacelli, economista com mestrado pela Universidade de Georgetown (EUA), se apresenta como especialista em questões energéticas, também em nível acadêmico, com palestras em universidades de toda a região. O novo ministro foi coordenador de Hidrocarbonetos da Organização Latino-Americana de Energia (Olade) e está entre os poucos funcionários escolhidos por Paz com passado governamental: por um curto período, Medinacelli liderou o mesmo ministério durante o governo de Eduardo Rodriguez Veltzé (junho de 2006 a janeiro de 2006).
Medinacelli também é responsável pelo interino da mineração, outra questão crucial da política nacional: de fato, algumas das mais importantes reservas de lítio, metal estratégico para a transição energética, encontram-se na Bolívia. Há dois projetos de lei no parlamento para autorizar o mesmo número de projetos de exploração confiados a uma empresa russa e a uma empresa chinesa, e a expectativa é que ambos sejam descartados. Tendo assumido a função de ministro, Medinacelli passou então – junto com Paz – a prestar juramento Youssef Akly como o novo presidente da empresa estatal de energia Ypfb (Yacimentos petrolíferos fiscais bolivianos) e Margot Ayala Lino como diretora executiva da agência nacional de hidrocarbonetos (ANH). Akly é engenheiro industrial com especialização em petróleo e gás natural e recentemente deixou o cargo de diretor executivo da Câmara Boliviana de Hidrocarbonetos e Energia (CBHE). Ayala Lino tem experiência de trabalho no Ypfb e no próprio Ministério da Energia, em projetos centrados na gestão de riscos, sustentabilidade ambiental e participação comunitária.
A área económica do governo é completada pelo Ministério do Planeamento e Desenvolvimento, a cargo de Fernando Romero: como presidente da Associação dos Produtores de Oleaginosas e Trigo (Anapo), promoveu o setor liderando uma agenda voltada para a produtividade, o uso da biotecnologia e a segurança jurídica. Outro empresário, Maurício Zamora Liebersficará à frente do Ministério das Obras Públicas, enquanto o Ministério do Desenvolvimento Produtivo ficará para Oscar Maio Justiniano, ex-presidente da Confederação Industrial da Província de Santa Cruz (Fepsc). Todos juntos, os ministros “económicos” receberam de Paz a tarefa de relançar a actividade, consolidar o quadro fiscal, aumentar a concorrência interna, criando também as condições para reacender os investimentos internacionais.
Do lado político, o nome forte do novo governo é o de José Luis Lupo Floresnovo ministro da Presidência, posição estratégica no executivo boliviano. Nascido em 1962, Lupo foi ministro cinco vezes (mas nunca num governo do Mas), e é considerado uma das personalidades mais experientes na gestão da coisa pública. Lupo, com estudos concluídos no México e no Colorado (EUA), também ocupou cargos importantes além da fronteira, na Caf (Corporação Andina de fomento) ou no Banco Interamericano de Desenvolvimento (Bid). Nas últimas eleições o novo ministro da presidência concorreu como possível deputado do candidato presidencial Samuel Doria Medina, empresário que foi então excluído do escrutínio. Ao integrar a equipa de Paz Pereira, Lupo certificou a vontade de passar “do diagnóstico dramático” da situação do país à proposta de “soluções sérias e firmes”. Como ministro da Presidência, Lupo é chamado a desenvolver um amplo conjunto de atividades: como figura de ligação entre o presidente e os ministros, terá de, entre outras coisas, monitorizar o grau de cumprimento das políticas públicas, elaborar a agenda do presidente, coordenar o conselho de ministros na ausência do chefe de Estado, gerir a comunicação governamental e apresentar leis no Parlamento.
O Ministério do Governo, com funções comparáveis às do nosso Ministro do Interior, será liderado pelo advogado Marco Antonio Oviedo Huertaentre os principais arquitetos da estratégia eleitoral de Paz Pereira. Com uma transição entre 1989 e 1993 no mesmo ministério que agora dirige, Oviedo (também conhecido como “Tuco”) terá que gerir a delicada situação de ordem pública interna: durante meses o país foi atravessado por manifestações e bloqueios de estradas organizados contra a alegada “perseguição judicial” do ex-presidente Morales, emblema das reivindicações das comunidades indígenas e camponesas. Protestos que poderão intensificar-se, como aconteceu recentemente no vizinho Equador, com a retirada progressiva dos subsídios estatais para a compra de combustíveis, necessária pelas políticas de reequilíbrio fiscal. O caso de Morales, que não responde à intimação para um caso de alegado tráfico de menores, também recairá sobre Freddy Vidovic Falch, o novo ministro da Justiça, também responsável pela Cultura. Advogado e professor, Vidovic é especialista em processos criminais e especializado na defesa de “vítimas da justiça”. O seu compromisso é a reforma do setor, o combate à corrupção e à impunidade.
Para outro advogado, Raul Marcelo Salinas Gamarrafoi incumbida a tarefa de chefiar o Ministério da Defesa. Proprietário de um escritório de advogados que fundou, Salinas Gamarra terá de garantir a soberania e integridade do território, sublinham os meios de comunicação, sem qualquer experiência anterior na área militar. Vamos para a Saúde Marcela Tatiana Flores Zambranamédico com vasta experiência em gestão de saúde pública, enquanto o Ministério da Educação vai para Beatriz Garciaprofessora universitária que se destacou como especialista no acompanhamento de camadas menos privilegiadas da população. PARA Cinthya Martha Yanez Eidem vez disso, vai o Ministério sem pasta do Turismo e Desporto. Já vice-ministro do Turismo em 2003, Yanez Eid também fez parte da gestão de uma empresa hoteleira.