Sobre nós Menções legais Contato

Bolívia: Paz Pereira toma posse como presidente, abre-se a era “pós-socialista”

Paz será o primeiro presidente, de 2006 até hoje, a não pertencer ao Movimento pelo Socialismo, partido fundado por Evo Morales

Hoje, sábado, 8 de novembro, a inauguração do Rodrigo Paz Pereira e Edman Lara como o novo presidente e vice-presidente da Bolívia. Esta é uma nomeação importante na história recente do país andino: Paz será de facto o primeiro presidente eleito nas urnas, de 2006 até hoje, que não pertence ao Movimento pelo Socialismo (Mas), o partido fundado por Evo Morales. Um ponto de viragem celebrado não só pela oposição interna, que continua a responsabilizar Morales por ter restringido as liberdades civis e económicas no país, mas também por muitas capitais da região, que saudaram a viragem conservadora prometendo ajuda e apoio ao crescimento. O novo posicionamento estratégico da Bolívia refletir-se-á na composição do palco dos convidados, com a saída de parceiros históricos e o regresso de antigas amizades, mas será sobretudo visível na anunciada retomada das relações com os EUA, interrompidas em 2009. Imediatamente após a proclamação oficial, Paz Pereira deverá também proceder à posse dos ministros, quebrando – em favor de uma promessa de maior eficiência – a tradição de compor o governo num momento posterior.

Neste momento a sua presença foi confirmada pelo Presidente da Argentina Javier Mileio presidente do Chile, Gabriel Borico presidente do Paraguai, Santiago Penae o presidente do Equador, Daniel Noboa. Persistem fortes dúvidas quanto à presença do presidente de El Salvador, Nayib Bukeleque não confirmou a disponibilidade dada num primeiro momento. Entre as chegadas estão o vice-secretário de Estado dos EUA, Christopher Landauo vice-presidente do Brasil, Geraldo Alckmine o Presidente do Conselho de Ministros do Peru, Ernesto Álvarez. O presidente cessante não comparecerá à cerimônia, Luis Arcee faltarão – porque não foram convidados – os presidentes da Venezuela, Nicolás Madurode Cuba, Miguel Díaz-Canelbem como os co-presidentes da Nicarágua, Daniel Ortega E Rosário Murillo. “Somos um país democrático” e “a nossa condição de relacionamento é na base da democracia”, explicou Paz Pereira em entrevista à “Cnn espanol”.

São esperadas no palco pelo menos 45 delegações, contando países e organismos internacionais. Conforme protocolo, a assessoria do presidente eleito também encaminhou o convite aos seus antecessores. O presidente cessante, Arce (2021-2025), que há muito recusou o convite, despediu-se do seu eleitorado admitindo “erros” que levaram o país a sofrer diversas emergências económicas. Uma situação que remonta em grande parte ao “derby” que durante anos o colocou contra Morales dentro do Mas, o partido que o expulsou há poucas horas por desvio de fundos. Eu estarei lá em vez disso Jeanine Aneza presidente “interina” (2019-2021) que foi revogada no início da semana de uma pena de dez anos de prisão imposta pelo “golpe de Estado” que supostamente realizou ao chegar ao poder no vácuo institucional criado após a renúncia de Morales, que renunciou devido a denúncias de fraude nas eleições presidenciais de outubro de 2019. O próprio Morales confirmou ter recebido o convite, mas denunciou a impossibilidade de comparecer a La Paz para não correr o risco de ser preso ligado a julgamentos de tráfico de pessoas que definiu como “inventados”.

O novo governo, garantiu finalmente Paz, avançará reabrindo o país aos investimentos estrangeiros, libertando-o do peso da ideologia e preparando-o para um futuro federal. O país, disse nos dias que se seguiram às eleições, foi durante vinte anos vítima de um modelo político – o do Mas – que transformou o Estado em património de um partido único, provocando, entre outras coisas, o despojamento de recursos energéticos. “Durante vinte anos eles nos enganaram.” “Um partido era dono do Estado e o Estado era dono dos nossos recursos naturais, como diz a Constituição.” Um preceito “que foi manipulado para fazer o que queriam com os recursos do país”, disse o presidente eleito entrevistado pela “Uno”. Para Paz Pereira é preciso voltar à transparência na gestão dos recursos naturais e abrir a Bolívia ao mundo, para atrair investimentos. “Precisamos ser capazes de dizer ao mundo: temos esta quantidade de recursos naturais e queremos fazer bons negócios com contratos claros e transparentes, não como os do lítio”.

Há meses que o Parlamento da Bolívia discute duas leis que teriam autorizado outros tantos contratos para a exploração de lítio, a uma empresa chinesa e a uma russa. Medidas que a oposição conseguiu não aprovar até às eleições presidenciais, denunciando a falta de clareza nos termos das concessões e a alegada falta de garantias sobre a execução técnica dos projectos. A ideia de Paz é trazer “todos os países, a China, os Estados Unidos, a Europa. Quem quiser vir pode vir, mas deixe claro que faremos contratos transparentes porque os bolivianos, 85% dos bolivianos sabem e muitos deles dependem do comércio”. Para o futuro presidente, Mas desperdiçou os lucros gerados pela venda do gás, livrando-se de recursos sem investir: “É por isso que não há capital e é por isso que o nosso programa hoje tem o título ‘Capitalismo para todos’”.

Paz Pereira denunciou o facto de que apesar das grandes reservas, a Bolívia se vê hoje perante a possibilidade de ter que importar gás da Argentina, sintoma do fracasso do modelo centrado na extracção de recursos, sem planeamento. “Queremos comprar gás de um país irmão, com os nossos poucos dólares, ou investir na Bolívia para garantir o nosso próprio futuro?”, disse Paz Pereira, prometendo uma reforma da Lei dos Hidrocarbonetos e uma nova política de investimento baseada em contratos “claros e transparentes”, a “50/50”. “Se você vem de fora, faz alguma exploração e tem bons resultados, investe, coloca a tecnologia e os milhões que a Bolívia não tem. Se houver gás dividimos a produção meio a meio.

Paz Pereira, ex-prefeita de Tarija e surpresa do primeiro turno eleitoral, venceu o segundo turno contra o ex-presidente Jorge “Tuto” Quiroga. Os dados oficiais da votação atribuem 3.519.534 votos equivalentes a 54,96 por cento ao partido de Paz, o Partido Democrata Cristão (Pdc), e 2.884.661 votos (45,04 por cento) à aliança Libre do ex-presidente Quiroga. O presidente eleito também terá de governar através de acordos de coligação, uma vez que o seu partido, pela primeira vez em mais de vinte anos, não goza de maioria absoluta na Assembleia Nacional (AN), o parlamento bicameral do país andino. O PDC poderá de facto ter 16 senadores num total de 36 e 54 deputados num total de 130. Números que garantem uma maioria relativa mas longe do quórum de dois terços exigido para algumas votações chave. A segunda força, a coligação Alianza libre que apoiou Quiroga, tem doze senadores e 41 deputados. Segue-se o grupo Alianza Unidad (AP), que acompanhou a corrida do empresário Samuel Doria Medina no primeiro turno, com 7 senadores e 28 deputados. A Autonomia para Bolívia-Sumate (Apb) terá um senador e cinco deputados, enquanto o Movimento pelo Socialismo (Mas), força que conta com maioria absoluta desde 2005, estará presente com apenas dois deputados.

Beatriz Marques
Beatriz Marques
Como redatora apaixonada na Rádio Miróbriga, me esforço todos os dias para contar histórias que ressoem com a nossa comunidade. Com mais de 10 anos de experiência no jornalismo, já cobri uma ampla gama de assuntos, desde questões locais até investigações aprofundadas. Meu compromisso é sempre buscar a verdade e apresentar relatos autênticos que inspirem e informem nossos ouvintes.