Pense rápido: o que passa literalmente voando sobre a guerra? Se pensou “munição”, você está meio certo, mas há outro protagonista: o drone barato, que hoje virou arma e espião, mudando todas as regras do campo de batalha.
Como chegamos a esse ponto? Os drones tomam o front
A guerra atual na Ucrânia deixou claro para todo mundo: a coisa militar não é mais a mesma desde que os drones low cost começaram a circular por aí. Modelos imensos como o lendário Bayraktar TB-2 capturam as manchetes, claro, mas máquinas menores, como o Switchblade americano, provaram ser tão formidáveis quanto acessíveis. Drones de baixo custo estão por todo lado, e seu uso pode inverter batalhas inteiras — trata-se de uma transformação real, digna de nota para quem achava que guerra era só para tanques e caças.
Mas, cá entre nós, é preciso relativizar: “baixo custo” é relativo. O famoso TB-2 turco, por exemplo, custa nada menos que cinco milhões de dólares cada unidade. É mais em conta que um Rafale (ufa!), mas ainda não cabe no bolso de todo exército.
Agora, vem o grande salto: os drones comerciais e de lazer. Especialmente os modelos da superpopular marca chinesa DJI, que custam umas poucas centenas de dólares. Sim, centenas! E ainda assim, podem causar estragos consideráveis em tropas inimigas. Nada mal para quem comprou um drone para filmar a natureza e terminou promovendo uma pequena revolução militar.
Da prateleira para a trincheira: criatividade ucraniana
Logo no início do conflito, o governo da Ucrânia convocou a população a entregar seus drones de lazer às Forças Armadas. O resultado? Uma mobilização intensa e eficiente desses aparelhos, como destaca um artigo da Ars Technica. Segundo Valerii Iakovenko, fundador da DroneUA, “os drones mudaram a maneira como se faz guerra”.
Tudo gira em torno da inteligência, da coleta e transferência de dados sobre movimentação e posição das tropas adversárias, e do ajuste dos disparos de artilharia. Mas não para por aí: drones também ajudam a desbaratar operações de sabotagem e possibilitam missões de busca e resgate de soldados.
Segundo Iakovenko, os ucranianos já contam com cerca de 6.000 equipamentos de reconhecimento, apoiados pela implantação emergencial, por Elon Musk e sua Starlink, de uma conexão robusta de internet por satélite em todo o país. Isso, aliás, é como trocar o antigo pombo-correio por um mensageiro digital high-tech.
Outros operadores foram além na criatividade militar com drones comerciais. A DJI, percebendo seus equipamentos sendo usados tanto na Ucrânia quanto na Rússia, anunciou sua retirada de ambos os países, para não ver seus drones lazer se tornando estrelas de guerra.
Do “faça você mesmo” ao campo de batalha: explosivos sob controle remoto
Tem mais: poucos dias atrás, viralizou no Twitter um vídeo mostrando um “faça você mesmo” militar — drones sendo usados diretamente para eliminar combatentes em solo. As cenas são fortes, com uma narração para lá de desumanizante (e uma trilha sonora de gosto duvidoso que propagandistas de ambos os lados deveriam rever). As imagens mostram mortes e sofrimento, além de, segundo o vídeo integral (não editado), possíveis crimes de guerra ao atingir alvos feridos e em fuga.
O que fizeram? Segundo Ian Matveev, usuários ucranianos adaptaram um DJI Phantom 3 — aquele velho conhecido dos fãs de drones de lazer — com um dispositivo capaz de transportar e soltar pequenos objetos sob encomenda. Outro observador, ChrisO, detalhou o processo e compartilhou até imagens ilustrativas.
O drone, segundo ChrisO, deixa cair granadas VOG-17 (fragmentação, design soviético), que recebem aletas de estabilização impressas em 3D, uma espécie de upgrade caseiro. Cada arma pesa 350 gramas, não explode tanto quanto parece, e é insuficiente para destruir um veículo por si só — mas é letal contra soldados no solo, como fica documentado em vídeos compartilhados. Detalhe: essas granadas são facilmente encontradas na Ucrânia.
A técnica já foi vista no Iraque e na Síria, mas nada comparado à escala ucraniana atual. E o improviso vai longe: desde 2020 já se testou uma versão “turbinada” desse combo econômico, com octocóptero lançando granadas antiblindado RKG-3 ou obuses de morteiro com aletas especiais para atingir até blindados leves como o BMP-3.
O fator custo: uma fábula de eficiência
O custo-benefício desses sistemas, segundo ChrisO, chega a ser extraordinário:
- Um octocóptero: cerca de 10.000 dólares.
- Um Phantom 3: perto de 500 dólares.
- Munição: menos de 100 dólares cada.
- Para efeito de comparação, cada BMP-3 destruído custa à Rússia incríveis 796.000 dólares — sem contar a tripulação.
Ou seja: basta uma equação básica para mostrar como o “dronezinho” de lazer pode se tornar o terror do front — tudo porque custos pequenos, criatividade e adaptabilidade valem mais do que pilhas de armamento velho e caro.
Conclusão: O futuro da guerra chegou voando
Vale o conselho: da próxima vez que ver um drone sobrevoando um parque, lembre-se que, em algum lugar, seus “primos” podem estar mudando o destino de uma guerra. O que antes era brinquedo, agora é parte do arsenal — e ninguém está vendo essa transformação parar tão cedo.