“Precisamos de uma base jurídica sólida”, disse Meloni
O Conselho Europeu de amanhã e sexta-feira promete ser um momento decisivo para a União Europeia, que terá de tomar uma decisão sobre o financiamento à Ucrânia e sobre a gestão dos activos russos congelados na sequência das sanções impostas após a invasão russa. A UE terá de decidir se estes activos, avaliados em milhares de milhões de euros, podem ou não ser utilizados para financiar a reconstrução da Ucrânia ou para outras formas de compensação pelos danos causados pela agressão russa. A este respeito, o Presidente do Conselho Italiano, Giorgia Meloni, sublinhou em comunicações à Câmara dos Deputados antes do Conselho Europeu que, apesar de ser a favor do congelamento de bens, a Itália se opõe a uma decisão precipitada sobre a possível utilização desses bens.
A posição da Itália, tal como afirma a própria Meloni, baseia-se no princípio de que todas as decisões devem ser tomadas no pleno respeito pelo Estado de direito. Segundo o primeiro-ministro, a utilização de activos russos congelados deve ser objecto de uma discussão aprofundada a nível político, envolvendo os líderes europeus e garantindo uma base jurídica sólida para qualquer possível acção. “Acreditamos que qualquer instrumento de apoio a Kiev deve respeitar o Estado de direito”, disse Meloni, sublinhando que qualquer proposta de utilização de activos russos deve ser considerada com muito cuidado, pois pode ter implicações jurídicas e políticas significativas. A Primeira-Ministra acrescentou que, embora tenha dado o seu consentimento para o congelamento de bens, isso não implica a aprovação imediata da sua utilização. A Itália, juntamente com outros países como a Bélgica – sede da empresa financeira Euroclear, onde a maioria destes activos está presente – Malta e Bulgária, expressaram de facto dúvidas sobre como alguns aspectos da gestão dos activos russos poderiam comprometer a estabilidade financeira de cada Estado-Membro ou mesmo prejudicar a reputação da UE no contexto internacional.
Mas uma decisão terá que ser tomada. E se não for alcançado um acordo, um “empréstimo-ponte” poderá ser utilizado para a Ucrânia. Na verdade, segundo o que foi relatado por fontes italianas, a escolha poderia ser entre a utilização de ativos russos, com todos os riscos envolvidos, ou um empréstimo tradicional, que “pode não ser a pior escolha economicamente”. O congelamento de activos russos é uma medida já em vigor – o Comité de Representantes Permanentes (Coreper) votou na semana passada com 25 votos a favor em 27 (apenas a Eslováquia e a Hungria contra) a favor da imobilização a longo prazo – mas agora a discussão centra-se em como proceder com a possível utilização destes fundos. A ideia de utilizar os activos para financiar a reconstrução ucraniana encontrou apoio em alguns estados, mas muitos outros, incluindo a Itália, temem que esta decisão possa abrir um precedente perigoso, levantando dúvidas de legitimidade. Meloni disse que a Itália é a favor de fazer a Rússia pagar pelos danos causados à Ucrânia, mas insistiu que este objectivo só deve ser prosseguido com uma base jurídica sólida, para evitar riscos para a economia europeia e para os orçamentos nacionais.
Outro tema de discussão será o acordo comercial UE-Mercosul, bloco que inclui países como Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. A Itália, embora reconhecendo a importância política e comercial deste acordo, apelou a uma maior atenção à protecção do sector agrícola italiano. Meloni afirmou que a Itália não pretende se opor ao tratado, mas pede que sejam incluídas ferramentas de proteção adequadas para os produtos agrícolas europeus, em particular os italianos, que poderiam ser ameaçados pela concorrência da produção de baixo custo da América do Sul.