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Analista Pinto à Nova: Depois da captura de Maduro na Venezuela, a nova fronteira dos EUA é Cuba

A região, em constante tensão entre dois campos políticos bem definidos, não viveu o degelo vivido após a queda do muro em outros cenários mundiais

Mas “acima de tudo”, continuou o professor, o governo de Cuba “foi o inspirador do Fórum de São Paulo e desta grande rede de grupos marxistas, progressistas e paramilitares de vários tipos que, em certo sentido, impediram o fim da Guerra Fria na América Latina”. A região, em constante tensão entre duas facções políticas bem definidas, não viveu o degelo vivido após a queda do muro em outros cenários mundiais. “O fim de Cuba – insistiu Pinto – pode, neste sentido, marcar o fim da Guerra Fria também na América Latina”. Um jogo para o qual os Estados Unidos parecem candidatar-se a um papel de “protagonista”, caso se confirme a estratégia vista até agora pela administração presidencial Donald Trumpmais recentemente na Venezuela. Não faltam sinais de que Washington está a trabalhar no dossiê, a começar pelas repetidas advertências lançadas pelo próprio Trump, e a manobra só pode ser afectada por um problema interno – “uma crise de consenso, talvez nas eleições intercalares, uma ruptura dentro da administração” – já que os potenciais aliados externos de Havana não parecem capazes de se opor a ela: “Os principais aliados de Cuba são a Rússia, desgastada pela guerra, o Irão, palco de protestos cada vez mais violentos, e a própria Venezuela que, no entanto, já não pode enviar o petróleo bruto”, um acordo que a Casa Branca monitora agora. “A China permanece, mas a China está longe”, observa Pinto.

Além de certificar o potencial técnico das forças militares dos EUA, a blitz levada a cabo em Caracas no dia 3 de Janeiro deixou de facto uma série de “grandes perdedores: Irão, Rússia, Nicarágua. Aqueles que imaginaram que a Venezuela poderia ser uma grande plataforma para a gestão geopolítica de matérias-primas, recursos, influências ou mesmo actividades paramilitares ou mesmo terroristas”. Os vencedores são os “oponentes venezuelanos, aqueles que salvam a própria pele, os presos políticos, incluindo os italianos”. Mas toda a manobra “sem dúvida” destaca o papel crucial desempenhado pelo secretário de Estado, Marco Rubio, “o homem que interpreta uma nova política ‘neoconservadora’, de intervencionismo democrático, de afirmação da primazia dos EUA com baixo custo político e humano”. O político de origem cubana “está emergindo como o inspirador-declinador desta nova doutrina personificada por Trump”, resumiu o analista, lembrando que Rubio apoia estas teses há anos. “Dois exemplos serão suficientes: em 2014 ele foi um dos mais ferozes críticos do ex-presidente Barack Obama por aceitar a ocupação da Crimeia pela Rússia Vladímir Putin. E foi um crítico brutal de Putin relativamente à política de ‘apaziguamento’ com o Irão”, recordou Pinto. E, de facto, “sempre sustentou que Cuba era o principal desestabilizador da América”.

A estratégia que os EUA estão a implementar na Venezuela “é bastante evidente”, resumiu o professor: “eles obrigam o governo venezuelano às suas condições, que são basicamente a redução da tensão interna, a libertação dos prisioneiros, a entrega do sistema petrolífero e, portanto, novamente, a remoção do papel de liderança que Cuba, Irão e Rússia tiveram”. Segue-se a próxima fase “muito complicada”, que chega a um sistema democrático completo, mesmo com eleições. Porque “é verdade que a oposição é muito forte, largamente maioritária, contando também com o consenso de milhões de exilados, mas também é verdade que há uma série de atores armados que não se encontram em nenhum outro lugar do mundo: os cartéis criminosos, o ‘Tren de Aragua’, as narco-guerrilhas marxistas da Colômbia ou os paramilitares”. Em outras palavras, o Prêmio Nobel Maria Corina Machado ou o “presidente eleito” Edmundo González Urrutia “são muito carismáticos, têm muitos seguidores e também demonstraram talento político”, mas “sem um actor internacional forte que garanta uma transição, provavelmente longa, o regresso à democracia é impossível”.

Beatriz Marques
Beatriz Marques
Como redatora apaixonada na Rádio Miróbriga, me esforço todos os dias para contar histórias que ressoem com a nossa comunidade. Com mais de 10 anos de experiência no jornalismo, já cobri uma ampla gama de assuntos, desde questões locais até investigações aprofundadas. Meu compromisso é sempre buscar a verdade e apresentar relatos autênticos que inspirem e informem nossos ouvintes.