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Analista Al Lamki para Nova: A Europa deveria intervir em Ormuz, o Irã é uma ameaça direta para você também

Figura chave nas comunicações estratégicas dos Emirados Árabes Unidos, com um papel de liderança nos meios de comunicação social, na defesa e na diplomacia pública, Al Lamki oferece uma leitura que reflecte a crescente preocupação das monarquias do Golfo

Uma figura chave nas comunicações estratégicas dos EAU, com um papel de liderança nos meios de comunicação social, na defesa e na diplomacia pública, Al Lamki oferece uma leitura que reflecte a crescente preocupação das monarquias do Golfo. A sua análise parte de um facto: a actual fase negocial é “imprevisível”, marcada por “níveis muito elevados de complexidade e ambiguidade”, mas ao mesmo tempo inserida numa dinâmica regional mais ampla, que durante décadas viveu “em estado de ebulição permanente”. Neste contexto, a prioridade para Abu Dhabi continua a ser a desescalada. Porém, alerta o analista, não pode haver estabilidade sem garantir a liberdade de navegação. “Devemos garantir que Ormuz permaneça completamente aberta e que a passagem marítima seja segura, sem ameaças e sem imposições”, afirma, rejeitando abertamente a ideia de impostos ou restrições de tráfego: “É um ato de intimidação que terá consequências económicas não só hoje, mas também a longo prazo”.

O ponto crucial, segundo Al Lamki, é que o comportamento iraniano ultrapassou agora um limiar crítico. “Estamos a falar de um ator que utiliza negociações e mediação como ferramentas táticas para fortalecer as suas capacidades militares”, argumenta, acusando Teerão de atingir repetidamente os Emirados Árabes Unidos com mísseis e drones “numa extensão ainda maior do que Israel”. Daí o pedido explícito à Europa: “Os países europeus, incluindo a Itália, devem intervir e desempenhar um papel eficaz”, porque o mercado energético global “não permanecerá estável” num contexto de insegurança estrutural. A mensagem é clara: o custo da crise também será pago pelos consumidores europeus, num sistema que está agora completamente interligado. O analista insiste no facto de que uma resposta eficaz não pode ignorar a coordenação estruturada entre a Europa e os países do Golfo. “Qualquer negociação que exclua os países do Golfo não está completa. E igualmente, uma negociação sem envolvimento europeu deixa uma parte essencial do problema descoberta”, afirma.

Neste sentido, Al Lamki critica implicitamente a lentidão na tomada de decisões da Europa: “Alguns países europeus não estão a tomar as medidas necessárias com a velocidade certa. Compreendo os constrangimentos políticos e institucionais, mas isto não é útil para ninguém numa fase tão crítica”. O ponto central continua sendo Ormuz, definida como um centro que não pode ser “refém de um poder que atua de forma irresponsável”. E à questão de saber se a Europa deveria enviar navios para a região, a resposta é clara: “Se necessário, sim. Porque no final tudo está interligado e a segurança dos ‘pontos de estrangulamento’ (gargalos) é fundamental”. A análise expande-se então para além do Estreito, incluindo outros teatros de crise que, segundo Al Lamki, são subestimados. “Hormuz, o Mar Vermelho e Bab el Mandeb fazem parte do mesmo problema”, afirma, indicando um elemento desestabilizador sistémico na estratégia iraniana de apoio às milícias no Iraque, na Síria e no Iémen.

A referência ao Sudão é particularmente significativa, definida como um “erro estratégico” a ser ignorado. “Manter o Sudão fora de cena é um erro grave”, alerta, recordando como o país foi no passado um refúgio para grupos jihadistas e sustentando que a atual dinâmica interna, influenciada pela ideologia da Irmandade Muçulmana, representa mais um fator de risco. A ligação com a Europa é direta: “Se fecharmos os olhos ao Sudão, ao Iémen ou a Ormuz, a União Europeia pagará um preço mais elevado”, também a nível migratório. Na verdade, Al Lamki recorda o risco de um afluxo de migrantes portadores de ideologias radicais: “A longo prazo, estas dinâmicas podem traduzir-se em novas redes que são lentamente reconstituídas nas sociedades europeias”. Para apoiar esta tese, ele também cita operações recentes realizadas nos Emirados: “Desmantelamos células adormecidas com mais de 80 membros. Isto, em nossa opinião, é ainda mais perigoso do que mísseis balísticos”.

Apesar da situação de forte tensão, o analista exclui – pelo menos no curto prazo – um impulso à escalada militar por parte dos países do Golfo. “Temos as capacidades, mas ninguém na região quer uma escalada”, afirma, reiterando que a prioridade continua a ser a estabilidade. A perspetiva estratégica, no entanto, continua ligada a uma mudança mais profunda em Teerão: “A esperança é que este regime não permaneça”, admite, embora reconhecendo que a questão não depende de Estados individuais, mas da pressão coordenada da comunidade internacional. Entretanto, a mensagem para a Europa é clara e directa: a crise iraniana não é um dossiê distante, mas um teste imediato à capacidade de defender interesses vitais. “Vivemos num mundo interligado: o que acontece no Golfo reflete-se imediatamente no Mediterrâneo”, conclui Al Lamki. “E quem não agir agora pagará o preço mais tarde.”

Beatriz Marques
Beatriz Marques
Como redatora apaixonada na Rádio Miróbriga, me esforço todos os dias para contar histórias que ressoem com a nossa comunidade. Com mais de 10 anos de experiência no jornalismo, já cobri uma ampla gama de assuntos, desde questões locais até investigações aprofundadas. Meu compromisso é sempre buscar a verdade e apresentar relatos autênticos que inspirem e informem nossos ouvintes.