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A Europa pode realmente ficar sem internet se a Rússia cortar os cabos?

Será que a internet da Europa corre mesmo o risco de ser cortada da noite para o dia, caso a Rússia resolva acabar com os famosos cabos submarinos? Pode parecer história de filme de ação, mas a ameaça está mais séria e próxima de nós do que imagina — e no fundo do mar, literalmente.

O que são esses cabos mágicos (e vulneráveis)?

Todos os dias confiamos cegamente que nossos likes, selfies e boletos pagos atravessam oceanos em segurança. Quase 99% do tráfego mundial da internet passa por cabos submarinos — verdadeiras “colunas vertebrais” da comunicação global. Eles somam hoje mais de 420 cabos, que juntos percorrem 1,3 milhão de quilômetros, ou mais de três vezes a distância entre a Terra e a Lua. O campeão é o SEA-ME-WE 3, conectando o sudeste da Ásia à Europa Ocidental por 39 mil quilômetros.

  • Esses cabos não servem só para memes: mais de 10 trilhões de dólares em transações financeiras cruzam por ali todos os dias! O famoso sistema Swift, por exemplo, depende inteiramente dessas “autoestradas do fundo do mar”.

E para quem acha que internet voa via satélite, vale a real: fibra óptica mandando dados à velocidade da luz debaixo d’água é que reina soberana. Só que o diâmetro médio desses cabos não é maior que uma mangueira de jardim – e perto da costa, onde ficam mais acessíveis, são mais reforçados, mas também mais vulneráveis.

Perigos à vista: sabotagem, pesca e… guerra?

Não faltam riscos. Basta um acidente ou sabotagem nos pontos de aterragem (lugares como Marselha, Bretanha ou Cornualha) para botar todo o continente em perigo. E não é algo só de ficção: há mais de uma centena de rupturas por ano, muitas vezes causadas por barcos de pesca arrastando âncoras. Mas há coisa pior.

  • Desde 2014, movimentos de navios russos “de pesca” ou “oceanográficos” — quase sempre de coleta de informações — chamam a atenção pelo vaivém nas costas da França e Irlanda, onde passam cabos cruciais.
  • Em 2021, o navio Yantar, equipado com um mini-submarino, mergulhou até 6.000 metros para seguir os cabos Norse e AEConnect-1, que ligam Europa e EUA.

Casos de sabotagem intencional já ocorreram: em 2017, cabos entre Reino Unido-EUA e França-EUA foram arrancados por tralhas de uma potência acostumada a usar forças irregulares em tempos de tensão. O cenário não é inédito: em 2007, pescadores vietnamitas cortaram um cabo e o país perdeu 90% da conectividade global por três semanas — e nem eram espiões, só queriam vender o material!

Espionagem, consórcios e a briga dos gigantes

A “guerra híbrida” pelo controle dos cabos é sorrateira. Grandes potências praticamente duelam sob as águas, enquanto a Europa parece obcecada apenas com ameaças digitais, esquecendo da fragilidade física dessas infraestruturas. Não agir só facilita espionagem e danos ainda maiores.

  • Os principais riscos concentram-se nas estações de aterragem: por exemplo, a pequena Lège-Cap-Ferret virou um verdadeiro ninho de espiões devido ao cabo “Amitié” entre França e EUA.
  • Com o crescimento do capital investido nos cabos, surgiram consórcios de dezenas de proprietários. Isso reduz custos, mas também deixa espaço para países-maus intencionados influenciarem (ou cortarem de vez) o fluxo de dados em caso de conflito.
  • Gigantes como Google já têm seus próprios cabos (exemplo: o Dunant, de propriedade exclusiva da empresa). A China aposta seu modelo “civili-militar” no cabo Peace, conectando o país a Marselha. E só China, Rússia e Estados Unidos dispõem de submarinos para interceptar ou até manipular os dados sem romper o cabo.

Tentativas de defesa: a Europa está pronta?

Para mitigar o perigo, iniciativas não faltam. Nos EUA, programas da administração marítima promovem uma marinha mercante pronta para atuar em crises, inclusive com navios e incentivos para reparos rápidos. Existem apenas cerca de 40 embarcações no mundo capacitadas para consertar cabos submarinos. A França, por exemplo, teria nove, mas só uma cobre do Atlântico Norte ao Báltico — o Pierre de Fermat, equipado com drones e pronto para zarpar em 24h (ufa!).
Mas em caso de ataque múltiplo? França e Reino Unido não têm meios suficientes. Nos Estados Unidos, soluções incluem até envolver associações civis, como o International Propeller Club — uma espécie de “milícia dos cabos submarinos” com 6 mil membros e US$ 3,5 bilhões em recursos para emergências.

A criação de um “Airbus dos cabos submarinos” europeu capaz de enfrentar os gigantes digitais só seria possível se a Europa assumir o tema como prioridade vital. O problema: o custo de um programa de defesa assim seria estratosférico até mesmo com participação da sociedade civil, ao estilo americano.

Conclusão: o que esperar?
Se a Europa não investir pesado em prevenção contra ataques e em capacidade de conserto rápido, o risco de um “apagão de internet” no melhor estilo século XXI é real. No contexto atual, pensar numa estratégia conjunta, capaz de se inspirar nos modelos americano e japonês e criar uma infraestrutura sólida e resiliente, não é luxo: é necessidade. Afinal, ninguém quer voltar à época em que só dava para saber das notícias pelo pombo-correio…

Beatriz Marques
Beatriz Marques
Como redatora apaixonada na Rádio Miróbriga, me esforço todos os dias para contar histórias que ressoem com a nossa comunidade. Com mais de 10 anos de experiência no jornalismo, já cobri uma ampla gama de assuntos, desde questões locais até investigações aprofundadas. Meu compromisso é sempre buscar a verdade e apresentar relatos autênticos que inspirem e informem nossos ouvintes.