Ex -presidente do Saray Bank for Trade and Investment (ATIB): “Apesar dos enormes recursos petrolíferos, a Líbia gasta mais moeda estrangeira do que você ganha com a venda de petróleo”
Vale lembrar que a Líbia ainda está dividida em duas coalizões políticas e militares rivais: por um lado, há a unidade nacional da unidade nacional do primeiro -ministro Abdulhamid Dabaiba, com sede em Trípoli, reconhecido pela comunidade internacional; Por outro lado, o governo nacional de estabilidade liderado por Osama Hammad, primeiro -ministro designado pela Câmara de Representantes, de fato um executivo paralelo com sede em Benghazi, perto do general Khalifa Haftar, um homem forte de Cyrenaica. Durante meses, o frágil equilíbrio do país do norte da África foi baseado em um acordo implícito entre duas famílias poderosas – o Dabaiba e o Haftar – com um papel persistente para o “verde” (ou seja, o ex -gaddafi) nos gânglios do Deep State. Hoje, no entanto, o status quo não parece mais sustentável e as Nações Unidas estão prestes a anunciar um “roteiro” para completar a transição política.
O mais recente relatório do Banco Central confirma o desequilíbrio de receita e despesas relatadas por El Bouri: Nos primeiros sete meses deste ano, as entradas em dólares derivadas da venda de petróleo e realeza foram iguais a 13,9 bilhões de dólares, contra usos e compromissos em moeda estrangeira por 19,1 bilhões de dólares. A diferença (tecnicamente conhecida como Libra de pagamentos), igual a 5,2 bilhões, representa o déficit acumulado até o final de julho, semelhante ao registrado em junho. Segundo o banqueiro, a condição essencial para resolver o problema das finanças públicas na Líbia é encontrar uma solução política. “A existência de dois governos – em Trípoli e Benghazi – não permite a redação de um orçamento estadual unificado. Para conseguir isso, é necessário unificar as instituições do oeste e leste do país, só que será possível ter um único equilíbrio”. Essa situação, que foi arrastada na Líbia há anos, também impediu o banco central de se libertar, restante – como observa El Bouri – “enredado em disputas políticas”. No papel, a Câmara de Representantes de Tobruk-Bengasi deve legislar para todo o território nacional. Na prática, no entanto, as leis e decisões adotadas pela Assembléia colidem com dois problemas principais: a aceitação seletiva dos dois governos rivais e a legitimidade duvidosa das regras aprovadas sem alcançar as disposições. “Nesse contexto – sublinha El Bouri – o banco central permanece refém de uma luta política que dificulta sua consolidação como um verdadeiro órgão de super partes”.
Segundo o analista, o banco central adota dois métodos de financiamento distintos para os governos rivais. O executivo da Trípoli baseia -se principalmente nas receitas do petróleo, enquanto o de Benghazi é apoiado por financiamento monetário, ou seja, emitindo dívidas públicas. Esse mecanismo duplo é o resultado de um aumento estonteante dos gastos públicos e da falta de confiança mútua: nenhuma das duas administrações deseja revelar ao outro como e onde leva seus recursos. O resultado é que os dois escritórios do Banco Central, em Trípoli e Benghazi, realmente operam como instituições separadas, cada uma a serviço de seu governo. “Na ausência de uma política tributária unificada, a instituição monetária permanecerá presa nessa condição de tensão permanente”, conclui o especialista.