Em entrevista ao “Politico”, o embaixador denuncia o papel do país do Médio Oriente no fornecimento das Forças de Apoio Rápido (RSF)
As armas fabricadas na Europa estão a alimentar atrocidades no Sudão e os países da União Europeia deveriam parar imediatamente de vender armas aos Emirados Árabes Unidos. Foi o que disse o embaixador sudanês na UE, Abdelbagi Kabeirem entrevista à edição europeia do portal “Politico”, denunciando o papel dos Emirados no fornecimento ao grupo paramilitar Rapid Support Forces (RSF), acusado pela ONU e por diversas ONG internacionais de massacres étnicos, violência sexual sistemática e deslocações em massa. Segundo Kabeir, “a UE está vinculada aos seus valores” e não pode permitir que armas destinadas aos Emirados acabem por ser reexportadas para zonas de conflito. “Essas armas não se destinavam ao uso de terceiros”, declarou, qualificando a posição europeia de “muito inconveniente”. A referência é, em particular, à venda de munições búlgaras aos Emirados em 2019, algumas das quais, segundo uma investigação da emissora televisiva “France24”, acabaram nas mãos da RSF. A Amnistia Internacional também documentou a utilização pela RSF de veículos blindados fabricados nos Emirados, mas contendo sistemas militares franceses produzidos pela Lacroix e KNDS. As empresas afirmaram que agiram em total conformidade com as licenças de exportação e certificados de não reexportação.
Os Emirados, entre 2015 e 2024, compraram armamentos no valor de mais de 21 mil milhões de euros à França. Como relata o “Politico”, um porta-voz do governo de Abu Dhabi rejeitou qualquer acusação de apoio a uma das duas partes em conflito e declarou que “não há provas concretas” de envolvimento no conflito. O porta-voz da Comissão dos Negócios Estrangeiros da UE, Anouar El Anouni, reiterou que a posição comum da União sobre a exportação de armas impõe uma proibição em caso de violações dos direitos humanos ou instabilidade interna. “Todos os fornecedores de armas e fundos aos beligerantes devem cessar imediatamente o seu apoio”, disse, acrescentando que Bruxelas utilizará “ferramentas diplomáticas e medidas restritivas” para procurar uma solução pacífica para o conflito. Desde 2023, a UE impôs sanções específicas contra membros da RSF e das Forças Armadas Sudanesas (SAF), congelando bens e reforçando o embargo de armas que está ativo há mais de 30 anos. O Embaixador Kabeir, no entanto, apelou ao levantamento das sanções contra os SAF, argumentando que prejudicaram a economia nacional e dificultaram o diálogo com Bruxelas. Segundo o embaixador, a crise humanitária está entre as mais graves do mundo: mais de 25 milhões de pessoas sofrem de fome e dezenas de milhares foram mortas desde 2023. Se a instabilidade continuar, alertou, as consequências repercutirão no Mediterrâneo e na Europa. “É uma campanha para destruir o país”, concluiu Kabeir.