A notícia do falecimento do Papa Francisco hoje chocou profundamente os fiéis de todo o mundo, incluindo a comunidade italiana residente em Portugal. Jorge Mario Bergoglio, o Papa que veio “do fim do mundo”, sempre demonstrou uma particular sensibilidade pelas pessoas, uma extraordinária capacidade de diálogo com todas as gerações e uma profunda proximidade aos sofrimentos e às esperanças da humanidade. Entre os países que tiveram a honra de o acolher durante o seu pontificado, Portugal ocupa um lugar especial, graças a dois momentos inesquecíveis que marcaram a sua relação com esta terra: a peregrinação mariana a Fátima em 2017 e a celebração da Jornada Mundial da Juventude (JMJ) em Lisboa, em agosto de 2023.
A viagem a Fátima em 2017: fé e devoção
A primeira visita oficial do Papa Francisco a Portugal ocorreu em maio de 2017. Foi por ocasião do centenário das aparições de Nossa Senhora em Fátima. Um percurso curto mas intenso, inteiramente dedicado à espiritualidade mariana. Durante aquelas poucas horas passadas no lugar simbólico da fé portuguesa, o Pontífice falou à multidão com a linguagem simples e imediata que sempre o distinguiu. Do altar de Fatina deixou mensagens profundas sobre a centralidade de Nossa Senhora na vida cristã: “Se quisermos ser cristãos, devemos ser marianos”lembrou aos presentes.
O momento culminante da visita foi a canonização dos pastorinhos Francesco e Giacinta Marto, testemunhas das aparições e símbolos de uma fé inocente e pura. Cerca de 500 mil fiéis estiveram presentes naquele dia. O Papa celebrou a missa solene, no sinal de uma partilha espiritual que envolveu não só os portugueses, mas também muitos peregrinos internacionais.
As imagens mais significativas da visita a Portugal em 2017
Lisboa 2023: um Papa entre os jovens e a coragem para enfrentar as feridas
Seis anos depois, o Papa Francisco regressa a Portugal para mais uma ocasião histórica: a Jornada Mundial da Juventude. Celebrada em Lisboa de 2 a 6 de agosto, a JMJ 2023 representou um momento de alegria e esperança para a Igreja universal. Mas também uma importante oportunidade para o Pontífice oferecer palavras de conforto, sem esconder os desafios que a religião católica enfrentava.
Chegando a um contexto marcado pelas feridas deixadas pelo relatório sobre os abusos sexuais na Igreja portuguesa, o Papa Francisco referiu-se imediatamente ao que definiu como um “grito angustiado” das vítimas. Com o seu habitual tom humilde e profundo, pediu perdão e desejou processos de reconciliação e purificação. O encontro privado com treze vítimas tornou-se um dos momentos mais significativos da visita. Um confronto sem filtros, durante o qual Francisco ouviu atentamente, partilhou a dor e pediu desculpas em nome da Igreja.
Mas no clima difícil daqueles dias, a alegria contagiante dos jovens de todo o mundo transformou Lisboa numa festa de cores, cantos e orações. O Papa Francisco, apesar das precárias condições de saúde, compareceu com energia e calor humano, trazendo mensagens que ficaram gravadas nos corações. A frase pronunciada no Parque Eduardo VII durante a cerimónia de abertura tornou-se o próprio símbolo do evento: “Na Igreja ninguém é supérfluo, há lugar para todos. Repita comigo: todos, todos, todos”. Palavras que resumem o sentido da missão de Francisco, a de construir uma Igreja aberta, acolhedora e inclusiva.
As imagens mais significativas da Jornada Mundial da Juventude 2023
Os eventos culminaram com a vigília e missa final no Parque do Tejo, na presença de mais de um milhão de peregrinos. Olhando para aqueles jovens deitados na relva, prontos para receber a mensagem final do Papa, podia-se perceber a própria essência do seu ministério: um apelo à ação, à confiança, à coragem de viver sem medo. “Não tenha medo de agir. Não tenha medo de sonhar”disse o Pontífice, entregando assim aos jovens o legado de uma Igreja missionária.
A memória de um Pontífice amado por Portugal
Ao longo do seu pontificado, o Papa Francisco conseguiu conquistar o coração dos portugueses com gestos simples mas poderosos. Com seu sorriso tranquilizador e a coragem de abordar temas difíceis sem nunca se esquivar. Quer tenha sido em Fátima, sob o manto protector de Nossa Senhora, quer entre os jovens de Lisboa, o Pontífice argentino demonstrou que compreende profundamente esta nação e o seu povo.
Até o Presidente da República Portuguesa, Marcelo Rebelo de Sousa, num discurso à nação elogiou o Papa pelo seu corajoso e profundo compromisso com a defesa da dignidade humana, da paz, da justiça e da solidariedade para com os mais pobres. Recordou as visitas de Francisco a Portugal, sublinhando a sua humildade e proximidade aos mais vulneráveis. Em nome do povo português, crentes e não crentes, agradeceu o carinho que tem pelo país. Bem como pelo apoio às vítimas de direitos negados, guerras e injustiças.
Hoje, enquanto a comunidade católica lamenta a perda de Papa Franciscocada um leva no coração um fragmento da sua mensagem. Em Portugal, permanecerão vivas as memórias daquelas duas viagens que uniram fé, reconciliação e esperança, num diálogo aberto e sincero entre o Papa e o povo. Uma relação que, sem dúvida, continuará a inspirar as gerações futuras.