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O que aconteceu com os cães de Tchernobyl surpreende até os cientistas

Prepare-se para uma história de resistência de virar o rabo: o destino dos cães de Tchernobyl surpreendeu até os cientistas mais acostumados a ambientes extremos. O que acontece com seres vivos, décadas após a maior catástrofe nuclear do século passado? Quando a humanidade partiu, quem ficou para contar — ou latir — essa história?

O Legado Atômico e a Zona Proibida

Em abril de 1986, ocorreram explosões nos reatores 4 e 5 da central nuclear de Tchernobyl, na Ucrânia, liberando césio-137, iodo-131 e vários outros radionuclídeos que, como visitantes indesejados, circularam pela Europa e até os Estados Unidos. Uma nuvem radioativa mudou para sempre a ecologia local, criando uma zona de exclusão de 2.600 km² — território que, após o êxodo humano, foi tomado por uma fauna ainda abundante.

Os humanos? Sumiram rapidinho. Já os animais, incluindo uma população notável de cães, continuaram firmes, ignorando qualquer plano pré-apocalipse. Mas o que dizer sobre os efeitos da radiação nesses sobreviventes de quatro patas?

Ciência no campo: decifrando o DNA canino irradiado

Até pouco tempo atrás, só haviam sido realizadas pesquisas sobre o efeito das radiações em pequenos roedores locais. Estudo genético com grandes mamíferos? Nada! Entram em cena Timothy Mousseau (Universidade da Carolina do Sul), Elaine Ostrander (NIH) e equipe, decididos a revelar segredos guardados nos genomas dos cães errantes de Tchernobyl.

A saga científica começou em 2017, com a coleta de amostras sanguíneas desses cães. Ao longo de dois anos e com muito jogo de cintura canino, 301 amostras foram recolhidas em três clínicas estrategicamente localizadas:

  • próxima à antiga usina, onde operários atualmente cuidam dos escombros;
  • na cidade de Tchernobyl, a cerca de 15 km, praticamente desabitada;
  • em Slavoutytch, 45 km adiante, uma vila construída recém-acidente para acolher os evacuaros.

Vale lembrar: logo após o desastre, o Ministério do Interior ucraniano ordenou que se abatessem todos os animais errantes ou abandonados. Nem todos os caçadores tiveram sucesso. O resultado: matilhas ressurgiram, para surpresa de quem achou que a radiação era pior do que um banho obrigatório.

Diferenças genéticas, sem perder o charme canino

A análise genética dessas três populações trouxe duas descobertas de cair o queixo:

  • Primeiro, quanto mais perto da ex-central os cães vivem, mais marcas de irradiação eles carregam, incluindo depósitos de césio-137 (um radioelemento tóxico) no organismo. Ali, os níveis são mais de 200 vezes superiores aos encontrados nos cães da cidade de Tchernobyl.
  • Segundo, não basta latir alto: as três populações são geneticamente diferentes não só dos cães errantes “convencionais”, mas também entre si. Isso, claro, não impede encontros e, quem sabe, romances de portão. O sequenciamento de DNA exibiu indícios de mistura entre todos eles. Clube do Bolinha radioativo, digamos assim.

Segundo Christophe Hitte, especialista em genética canina do IGDR (Rennes), este estudo é apenas o começo. Agora que as áreas e a estrutura genética dessas populações foram descritas, os cientistas têm em mãos uma ferramenta de peso: vão poder analisar, ao longo de cerca de 30 anos, como as linhagens resistiram à radiação. Hitte arrisca: genes envolvidos na reparação do DNA dos cães de Tchernobyl teriam se tornado bem mais eficientes do que nos cães comuns, que provavelmente não teriam sobrevivido nesse cenário hostil.

O futuro científico dos cães de Tchernobyl

A pesquisa nos cães de Tchernobyl está só nos primeiros capítulos. Ainda vem aí muito trabalho genético, com promessas de novas surpresas. Como observa Christophe Hitte, trata-se de uma oportunidade rara: “Uma colônia relativamente isolada de cães que se reproduzem há 30 anos num ambiente tão mutagênico é material de sonho para qualquer geneticista”.

Os cães de Tchernobyl viraram, sem saber, protagonistas de um grande experimento natural. A fauna que ficou preencheu os vazios deixados pelos humanos — e a ciência segue, animada, atrás de respostas. Fica, então, a lição: onde o ser humano sai correndo, os cães (e os pesquisadores) encontram uma nova história para contar. Quem diria que o legado nuclear renderia não só um alerta, mas também uma esperança genética embalada por latidos?

Beatriz Marques
Beatriz Marques
Como redatora apaixonada na Rádio Miróbriga, me esforço todos os dias para contar histórias que ressoem com a nossa comunidade. Com mais de 10 anos de experiência no jornalismo, já cobri uma ampla gama de assuntos, desde questões locais até investigações aprofundadas. Meu compromisso é sempre buscar a verdade e apresentar relatos autênticos que inspirem e informem nossos ouvintes.