A Suíça é muitas vezes vista como um “eldorado” da Europa, tanto que se tornou o destino preferido de milhares de trabalhadores que procuram uma vida nova e, se possível, mais rica. Um mito que, no entanto, deve lidar com a dura realidade económica deste país, onde o custo de vida e os preços da habitação estão longe de ser acessíveis. Vale a pena viver no estrangeiro se o salário mais elevado é igualmente corroído pelas despesas? Uma pergunta que Lucas, um engenheiro argentino de 35 anos que, depois de trabalhar na Espanha e na Alemanha, se mudou para Zurique a trabalho, tentou responder: seu salário é muito alto, mas quase metade dele vai para aluguel.
Salários na Suíça
Por que a Suíça? Com os dados em mãos, a escolha parece óbvia. Segundo dados do Gabinete Federal de Estatística da Suíça (FSO), o salário médio na Suíça situa-se entre os 71.500 e os 84 mil euros, enquanto o valor do salário bruto médio anual ultrapassa os 100 mil euros. Números duplos ou triplos face aos países europeus, como confirmam os últimos dados do Eurostat: na Alemanha o salário médio ronda os 57 mil euros, em França pouco mais de 43 mil euros, enquanto em Espanha e Itália ultrapassa apenas os 33 mil euros por ano.
A história de Lucas
Em entrevista ao jornal El Español, Lucas explicou a sua situação e a sua gestão das finanças: “Na Suíça tenho um salário de 10 mil euros por mês e procuro reservar pelo menos metade, cerca de 5 mil euros. Uma condição aparentemente magnífica, mas que choca com a dura realidade: “Nem tudo que reluz é ouro – sublinhou Lucas -. Muitos sonham em mudar-se para cá, mas a realidade é que muitas pessoas vêm para a Suíça e percebem que afinal não é tão idílico”.
A renda de 4 mil euros
O primeiro e maior obstáculo diz respeito aos preços das casas: “Hoje em dia é impossível encontrar alojamento: pago cerca de 4 mil euros por mês de renda”. O apartamento onde reside, composto por três quartos, tem um valor de venda proibitivo de cerca de 2,2 milhões de euros no mercado imobiliário. Segundo os cálculos de Lucas, para sobreviver na Suíça é preciso um salário que seria considerado alto em outros países: “O mínimo necessário na minha opinião é de pelo menos 3 mil euros por mês, mas se eu ganhasse esse pouco seria obrigado a dividir um apartamento”.
Outro factor determinante no orçamento mensal é a ausência de um Estado-providência semelhante ao do Sul da Europa. Lucas explica que a Suíça não tem um sistema público de saúde como o espanhol: “Pago cerca de 500 euros por mês de seguro de saúde. Aqui, porém, é como ter um carro: tenho franquia e pago tudo do meu próprio bolso, até 2.500 francos por ano”.
O jogo vale a pena?
Apesar destes enormes gastos, o engenheiro sustenta que o jogo vale a pena do ponto de vista do poder de compra, já que na Suíça ainda se poupa mais do que em Espanha, tendo também em conta outros itens que acabam por pesar no orçamento global: “Um voo para a Argentina custa muito menos na Suíça do que em Espanha, até economizo mil euros”. A sugestão que Lucas dá a quem como ele quer dar este passo é não avançar sem uma base económica adequada: “O meu conselho é que venham com paciência e poupanças substanciais, pelo menos 3 mil ou 4 mil euros para viver um ou dois meses sem trabalhar”.
No final da entrevista o engenheiro falou ainda sobre o outro lado da moeda, ligado à precariedade do estatuto migratório e à rigidez das leis sobre residência. Na Suíça, de facto, as garantias desaparecem rapidamente em caso de desemprego: “Se eu perdesse o meu emprego, dariam-me alguns meses para encontrar outro; caso contrário, teria que sair do território nacional”. “Emigrar não é só uma questão de dinheiro – concluiu Lucas -. Do meu ponto de vista, não creio que mudar para outro país seja uma escolha adequada para todos”.