O órgão máximo do poder judicial lembrou que numa sociedade democrática é legítimo comentar as decisões, mas a discussão deve permanecer “no âmbito do debate profissional”
A longa questão croata de empréstimos em francos suíços transformou-se mais uma vez num conflito aberto entre o poder judicial, as associações de devedores e o sistema bancário. O Supremo Tribunal da Croácia reagiu duramente às declarações públicas de Goran Aleksic, figura central da Associação Franak, após as acusações feitas por esta contra alguns juízes do mais alto órgão judicial. Em nota divulgada pelo porta-voz Zeljko Pajalic, o Tribunal lembrou que numa sociedade democrática é legítimo comentar as decisões judiciais, mas que a discussão deve permanecer “no âmbito do debate profissional”. Sempre que for necessário uniformizar a prática judicial, acrescentou o tribunal, o Supremo Tribunal seguirá o procedimento previsto na lei. A passagem mais severa da nota, porém, diz respeito ao tom da crítica. O Tribunal definiu como “infundado e malicioso” insultar juízes e criar um clima de “linchamento e perseguição” às opiniões jurídicas expressas pelos membros do painel. De acordo com o Supremo Tribunal, os ataques aos magistrados pelas suas decisões e pelos argumentos contidos nas sentenças não só são contrários à Constituição croata e à Lei dos Tribunais, como também são estranhos a qualquer sociedade democrática e civil. É uma resposta institucional que muda a comparação do mérito técnico dos empréstimos em francos suíços para o tema mais geral da pressão pública sobre os juízes numa das disputas financeiras mais sensíveis da Croácia.
Na origem do conflito está a reação da Associação Franak à decisão Rev-769/2022, relativa às cláusulas contratuais que permitiam aos bancos alterar unilateralmente as taxas de juro. Segundo a associação, o colegiado do STF é presidido pelo juiz Ante Perkusic teria se afastado da jurisprudência anterior, introduzindo nova incerteza nas disputas entre bancos, artesãos e empresas. A Associação Franak afirma que no passado o Tribunal Superior de Comércio e o próprio Supremo Tribunal declararam nulas cláusulas semelhantes, abrindo caminho ao reembolso dos juros pagos em excesso. No caso Rev-769/2022, porém, segundo a associação, o Tribunal teria aceitado a possibilidade de o banco alterar a taxa de juro sem aplicar um parâmetro variável, com efeitos potencialmente significativos também para os processos ainda pendentes. Contudo, a objeção de Franak foi além da crítica jurídica. A associação argumentou que tal decisão só poderia ser explicada por uma leitura negligente dos documentos ou pela vontade de ajudar os bancos a reter valores considerados ilícitos, evocando também o tema da corrupção sem apresentar provas que sustentassem esta acusação. Daí a resposta do Supremo Tribunal, que rejeitou a ideia de que a dissidência sobre as decisões pudesse transformar-se numa deslegitimação pessoal dos juízes. O caso também reabriu a questão da uniformidade da jurisprudência: Franak pede que a Presidente do Supremo Tribunal, Mirta Matic, intervenha para garantir a consistência nas decisões sobre taxas variáveis e cláusulas contestadas.
O contexto é o do chamado “caso Franak”, um litígio que se arrasta há anos e que diz respeito a milhares de cidadãos e empresas que contraíram empréstimos indexados ao franco suíço. Antes da crise financeira global, estes produtos eram populares em vários países da Europa Central e Oriental porque ofereciam inicialmente taxas mais baratas do que os empréstimos em moeda local. Na Croácia, de acordo com um parecer do Banco Central Europeu de 2015, os empréstimos em francos suíços ascenderam a cerca de 23 mil milhões de kuna, equivalentes a cerca de 3 mil milhões de euros, e representaram 9% da carteira global de empréstimos dos bancos; a quase totalidade dizia respeito às famílias, com um peso igual a 35,6 por cento das hipotecas imobiliárias. O problema explodiu quando a valorização do franco suíço aumentou o peso das prestações e da dívida residual para muitos devedores. Em 2015, a Croácia aprovou uma conversão de empréstimos em francos suíços em empréstimos denominados ou indexados ao euro, com o objetivo de colocar os mutuários na posição em que estariam se os seus empréstimos tivessem sido originalmente denominados em euros. O próprio BCE observou então que a conversão teria implicado custos significativos para o sistema bancário: de acordo com a avaliação do Banco Nacional Croata, os encargos para as instituições poderiam atingir aproximadamente 8 mil milhões de kuna, o equivalente a 1,1 mil milhões de euros, ou seja, o equivalente a aproximadamente três anos de lucros esperados do sector.
A resposta do Supremo Tribunal às palavras de Aleksic insere-se, portanto, numa fase de forte tensão institucional. Para a Associação Franak, o risco é que uma decisão divergente no caso Rev-769/2022 reduza ou torne mais incerto o direito dos artesãos, empresas e cidadãos à recuperação dos juros pagos em excesso. Para o Tribunal, porém, a questão é defender a legitimidade do processo de tomada de decisão e evitar que as críticas às sentenças degenerem em acusações pessoais não comprovadas. O novo embate mostra que o “caso Franak” já não é apenas uma disputa técnica sobre cláusulas contratuais e cálculos de reembolso. Tornou-se um teste à segurança jurídica na Croácia, à independência do poder judicial e à capacidade das instituições para gerir um conflito social que envolve milhares de pessoas e somas muito avultadas e, ao mesmo tempo, proteger o sistema bancário.