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Da beira da extinção ao renascimento: a lição do lince para a Europa rural

Embora o debate sobre o futuro da protecção dos grandes carnívoros como o lobo e o urso continue aceso em Itália, a história do lince ibérico oferece uma perspectiva diferente. A presença de uma espécie selvagem no território não deve necessariamente ser interpretada como um conflito entre a natureza e as comunidades locais.

O desafio, em vez disso, é construir ferramentas de coexistência capazes de proteger a biodiversidade e, ao mesmo tempo, apoiar aqueles que vivem e trabalham nas zonas rurais. O renascimento do lince demonstra que a conservação pode funcionar quando não se limita à protecção de um animal, mas envolve agricultores, empresas, administrações e cidadãos, transformando uma possível fonte de tensão numa oportunidade para o território.

E, graças ao apoio dos fundos europeus, pode tornar-se um exemplo para todas as zonas rurais da União que devem procurar uma coexistência complexa com populações cada vez mais ameaçadas de grandes carnívoros.

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Um símbolo de renascimento

No início da década de 2000, o lince ibérico era considerado um dos mamíferos mais ameaçados do mundo. Em 2002, a União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN) classificou a espécie como “criticamente ameaçada”. As populações foram fragmentadas, confinadas a áreas isoladas e sujeitas a forte pressão devido à perda de habitat, redução de presas naturais e acidentes rodoviários.

Hoje, pouco mais de vinte anos depois, a situação conta uma história completamente diferente. A população cresceu de cerca de 100 exemplares para mais de 2.400, graças a um esforço coletivo que envolveu regiões espanholas e portuguesas, instituições europeias, comunidade científica, proprietários de terras e cidadãos.

“Graças ao esforço conjunto de muitas instituições, à solidariedade europeia e à participação ativa dos cidadãos, podemos afirmar com orgulho que o lince ibérico passou de um estado crítico para uma categoria vulnerável e que a sua população continua a crescer”, explica Juanma Moreno, presidente da Região da Andaluzia, a propósito dos resultados do projeto europeu VIDA Lynxconectar.

A região de Soagnola representa um dos territórios mais importantes para este renascimento. O censo de 2024 registou 856 exemplares, mais 78 que no ano anterior, com 19 novos territórios de reprodução e o regresso da espécie a zonas onde não se reproduzia há 40 anos, como algumas zonas da Serra Elvira e Granada.

Estes números não representam apenas um sucesso ambiental, mas são o resultado de um modelo de cooperação que transformou a conservação da natureza num projeto coletivo capaz de gerar novas oportunidades para territórios rurais frequentemente afetados pelo despovoamento e pelo envelhecimento da população.

O projeto LIFE Lynxconnect reúne 22 parceiros, um investimento total de 18,7 milhões de euros e 60,6 por cento de cofinanciamento da Comissão Europeia.

Tudo isto permitiu levar a cabo 34 ações estratégicas para consolidar as populações do lince ibérico, promover a ligação genética entre grupos isolados e promover a coexistência entre as atividades humanas e a proteção da biodiversidade.

Construindo o futuro das áreas rurais

O renascimento do lince ibérico é também uma história europeia. Os investimentos na biodiversidade através da Política de Coesão e do Programa Life para o Ambiente e a Ação Climática podem proporcionar benefícios que vão além da proteção de uma única espécie.

Os seres humanos podem permanecer no centro desta discussão, assim como o apoio às economias locais e rurais e o reforço da cooperação entre diferentes territórios e regiões. Não se trata apenas de criar infra-estruturas ou de apoiar a economia tradicional. Cada vez mais Bruxelas procura melhorar o capital natural e transformá-lo num motor de crescimento para as comunidades locais.

Por exemplo, o programa LIFE tem representado um elemento decisivo tanto para a recuperação do lince ibérico como para a integração de iniciativas que combinam investigação científica, envolvimento social e desenvolvimento rural. “A Europa tem acreditado na recuperação do lince ibérico e os resultados demonstram que as políticas de conservação apoiadas pelo financiamento europeu funcionam para fazer crescer o território”, reiterou o presidente da Região da Andaluzia.

Diferentes territórios, muitas vezes distantes dos grandes centros urbanos, podem colaborar para enfrentar desafios comuns. Nas zonas rurais da Península Ibérica, o regresso do lince trouxe novas competências, emprego, turismo sustentável e orgulho colectivo. “Quando a Europa coopera, a natureza pode ser restaurada de forma pragmática”, continua Moreno.

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Entre a proteção da espécie e do território

O exemplo espanhol demonstra claramente que a conservação da natureza não pode ser separada do futuro das comunidades que vivem nos territórios em causa. A sobrevivência de uma espécie depende da capacidade de construir um equilíbrio entre as necessidades ambientais, as atividades económicas e a vida quotidiana das pessoas.

Desde as fases iniciais do projeto LIFE Lynxconnect, uma abordagem baseada na participação de administrações públicas, universidades, organizações não governamentais, proprietários de terras, associações agrícolas, caçadores e empresas locais foi favorecida na definição de estratégias de recuperação do lince.

“Não se trata apenas da conservação das espécies, mas da proteção da sociedade como um todo”, lembra Moreno, destacando fortemente o elemento de coesão social e territorial de todo o projeto. Um papel fundamental foi desempenhado pelos centros de reprodução e reprodução em cativeiro, criados como rede de segurança para evitar a extinção e permitir a posterior libertação na natureza.

O centro La Olivilla, gerido pelo governo regional da Andaluzia, é um dos pontos de referência desta estratégia. “Os principais objetivos são manter uma população gerida genética e demograficamente, criar novas populações livres através da reintrodução e garantir o apoio aos animais selvagens quando necessário”, explica María José Pérez Aspa, veterinária responsável pelo centro de criação.

Desde 2007, La Olivilla contribuiu para o nascimento de mais de 150 crias de lince, monitorizando todos os aspectos das suas vidas para garantir a capacidade de adaptação da espécie ao ambiente natural. Mas o valor do centro não se limita à investigação científica.

Situada numa zona rural próxima de pequenas localidades, tornou-se também uma referência da zona com oportunidades de emprego, acolhendo visitantes, promovendo atividades educativas e sensibilizando as novas gerações.

“O centro é hoje parte integrante da economia local”, confirma Pérez Aspa: “Permite a permanência das pessoas graças a novas oportunidades de emprego e a profissionais qualificados para desenvolverem as suas carreiras”. A proteção das espécies também produziu efeitos inesperados, como a valorização do património cultural.

A investigação arqueológica realizada na zona centro permitiu recuperar vestígios históricos ligados a uma batalha medieval ocorrida na zona, estimulando o turismo não só ligado ao lince.

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Uma convivência a ser construída

O regresso do lince ibérico não foi certamente isento de dificuldades. A presença de um grande predador em territórios agrícolas e rurais exige diálogo, informação e ferramentas para enfrentar eventuais conflitos.

Os agricultores, criadores e gestores de áreas de caça têm um papel central no sucesso da reintrodução, porque afinal são eles que vivenciam diariamente o território com as suas dificuldades.

“Para as nossas comunidades o lince é um predador e um predador pode significar problemas, por isso a boa comunicação e o envolvimento das pessoas são fundamentais”, deixa claro David Nogueira, representante da Comunidade Intermunicipal do Baixo Alentejo, parceiro português do projeto LIFE Lynxconnect.

Na zona do Baixo Alentejo, região caracterizada por vastas áreas rurais e baixa densidade populacional, o projeto visou precisamente construir uma relação direta com as comunidades.

Como salienta Nogueira, “o nosso objetivo é fazer com que as pessoas se sintam parte do processo e não apenas observadores do regresso da espécie, tornando sustentável a presença do lince”.

As atividades de sensibilização envolveram milhares de cidadãos. Uma exposição itinerante sobre o lince ibérico chegou a mais de 30 mil visitantes em 22 localidades, enquanto os encontros em escolas e cidades envolveram mais de 1.500 crianças e outros tantos adultos.

Até eventos agrícolas e feiras locais tornaram-se oportunidades para falar sobre a conservação da espécie. O lince tornou-se progressivamente num elemento de reconhecimento territorial, associado a produtos locais como o azeite, o mel, o vinho, o artesanato e o turismo rural.

No entanto, a coexistência também requer soluções concretas. Os acidentes rodoviários continuam a ser uma das principais ameaças a enfrentar com campanhas de sensibilização e sinalização rodoviária ad hoc, ao mesmo tempo que são previstos mecanismos de compensação para agricultores e caçadores por quaisquer perdas económicas.

Uma forma de demonstrar que conservação não significa impor uma presença de cima, mas sim construir um novo pacto entre as pessoas e a natureza.

Beatriz Marques
Beatriz Marques
Como redatora apaixonada na Rádio Miróbriga, me esforço todos os dias para contar histórias que ressoem com a nossa comunidade. Com mais de 10 anos de experiência no jornalismo, já cobri uma ampla gama de assuntos, desde questões locais até investigações aprofundadas. Meu compromisso é sempre buscar a verdade e apresentar relatos autênticos que inspirem e informem nossos ouvintes.