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Síria: o projeto apoiado pela Itália para salvar os artefatos que sobreviveram à guerra em Aleppo

Entre os achados guardados em Aleppo estão artefatos dos antigos reinos de Mari e Ugarit, cidades fundamentais para a história do antigo Oriente Próximo

Entre achados guardados durante anos em depósitos improvisados, caixas movidas durante o conflito e arquivos deixados incompletos desde o início da guerra civil, o Museu Nacional de Aleppo tenta lentamente reconstruir a memória arqueológica da Síria. É aqui, na segunda instituição museológica mais importante do país depois do Museu Nacional de Damasco, que teve início o “Hands on Heritage”, um projecto financiado pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros e da Cooperação Internacional italiano e dedicado à formação de jovens arqueólogos, estudantes e curadores sírios na gestão e catalogação do património histórico. A iniciativa, organizada pela Direção Geral Síria de Antiguidades e Museus (Dgam) em conjunto com a Universidade de Florença em colaboração com a UNESCO, terá a duração de três meses e envolverá 24 estagiários, incluindo estudantes da Universidade de Aleppo e funcionários da superintendência arqueológica local. Liderando o programa está um grupo de especialistas italianos que chegaram ao norte da Síria para trabalhar diretamente nos materiais preservados no museu, muitos dos quais provenientes de alguns dos sítios arqueológicos mais importantes do Médio Oriente.

Entre os achados guardados em Aleppo estão artefatos dos antigos reinos de Mari e Ugarit, cidades fundamentais para a história do antigo Oriente Próximo. A coleção inclui tabuletas cuneiformes, estátuas, objetos rituais e evidências dos primeiros objetos de alto artesanato difundidos por todo o Mediterrâneo oriental. “Estamos falando de objetos muito raros, alguns dos quais representam as evidências mais antigas da escrita cuneiforme”, explicou Pucci. “Há uma coleção extraordinária de estátuas e materiais que mesmo os estudiosos normalmente só veem em livros ou arquivos fotográficos.” Além do trabalho técnico de catalogação e conservação, o projeto inclui também atividades relacionadas com a comunicação digital e a valorização online do património cultural.

Os participantes estão, de facto, a trabalhar na criação de ferramentas sociais e conteúdos fotográficos destinados a contar a história do museu e das suas coleções. “Todos estão muito envolvidos e receptivos, mal podiam esperar para ter uma oportunidade como esta”, observou Pucci. Segundo a professora, o objetivo a longo prazo não diz respeito apenas à conservação física dos achados, mas também à forma como a Síria do pós-guerra irá narrar o seu património histórico e cultural. “A ideia é contribuir para a reorganização do museu também de uma forma menos ligada à narrativa do período colonial francês”, explicou. “Como estrangeiros, não podemos lidar diretamente com a exposição, porque o museu representa a identidade síria e é certo que os sírios decidam como contá-la”, acrescentou Pucci. “O que podemos fazer é partilhar métodos, experiências e ferramentas para que os curadores locais possam construir de forma independente o futuro do museu.”

Beatriz Marques
Beatriz Marques
Como redatora apaixonada na Rádio Miróbriga, me esforço todos os dias para contar histórias que ressoem com a nossa comunidade. Com mais de 10 anos de experiência no jornalismo, já cobri uma ampla gama de assuntos, desde questões locais até investigações aprofundadas. Meu compromisso é sempre buscar a verdade e apresentar relatos autênticos que inspirem e informem nossos ouvintes.